O Herdeiro do Mundo

104 - Contando para a Irmã

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Quando Rael pensava em contar a verdade, ele sentia um aperto dentro do peito e as palavras ficavam difíceis de dizer. Ele nunca pensou que ficaria assim quando a hora finalmente chegasse.

― Você se lembra de seu irmão Rael? ― perguntou ele se virando. Natalia, que estava com um olhar sério, na mesma hora ficou confusa. Como ela esqueceria seu irmão Rael? Mas porque ele perguntaria isso? Natalia não conseguiu entender.

― Lembro. ― respondeu a garota sem pensar muito. Embora continuasse não entendendo o motivo da pergunta.

― Eu não me chamo Samuel, esse foi um nome falso dado por minha mestra há cinco anos atrás. Os guardas me sequestraram da cabana que antes tinha ao lado da muralha aqui do clã. Eu fui pego e levado para um penhasco. Eles me apunhalaram e me mandaram queda abaixo. Naquela noite eu morri. Um aleijado inútil que tinha somente um braço. ― disse Rael, retirando o terno e exibiu o braço azul: ― Não foi um acidente que me rendeu esse braço diferente, foi minha mestra que me deu depois que eu a encontrei. Ela me deu porque antes eu não o tinha. ― disse Rael. Natalia ficou toda confusa no primeiro instante e se sentou na cama deixando a coberta de lado, ela nem se importou de está mostrando boa parte do corpo nu. Sua mente já estava trabalhando nas informações recebidas, ela já estava começando a ligar os fatos.

― O que você está tentando me dizer? ― perguntou ela. Seu coração por dentro já batia levemente. Ela sentia o que estava por vim embora não tivesse completa certeza.

― Eu sou Rael, seu irmão que desapareceu cinco anos atrás. Seus pais mandaram os guardas se livrarem de mim. ― explicou Rael. Natalia olhava aflita para Rael, ela corria os olhos por ele e pelo braço direito amostra.

― Isso não pode ser… Meu irmão nunca foi ruivo… ― disse a garota. Sua voz já estava se alterando. Seu peito subia e descia e seu coração tinha disparado.

― Sou eu sim. Eu herdei essa cor de cabelo da minha mestra junto com o braço direito. Lembra que uma vez eu disse que minha mestra era ruiva? ― perguntou Rael. ― Ela é um ser diferente, quando ela me encontrou passou parte de seu poder pra mim. Por isso eu ganhei um braço e a nova cor de cabelo. ― explicou ele. Natalia ficou em silêncio com o coração pulsando forte, memórias de seu irmão haviam surgindo desde a primeira vez que ela reencontrou Rael. Ela sempre sentiu que o conhecia de algum lugar…

― Então você é mesmo ele? Isso é verdade? ― a garota perguntou pra confirmar. A voz dela já estava um pouco falha.

― Sim. Lembra quando as vezes você vinha escondida do clã e se deitava na cabana comigo? Até os guardas perceberem e levarem você de volta. Você deixava seus pais furiosos. A gente conversava bastante, falávamos sobre como seria o fundo do mar ou como seriam as bestas aquáticas. Você adorava as histórias do dragão Rei do Mar. Até me mostrou um livro com ilustrações de como seria ele, lembra? ― perguntou Rael. Ele não foi forte suficiente e várias lágrimas desceram de seu rosto. Em Natalia também teve o mesmo efeito. Ela olhou de lado e sentia seu corpo inteiro trêmulo agora. O que Rael acabou de dizer sobre o Rei do Mar, só seu verdadeiro irmão poderia saber. A ficha finalmente caiu.

― Você foi a única pessoa em todo esse clã que me tratou com respeito. Você nunca me desprezou por eu ser um aleijado. Por isso eu disse, e direi um milhão de vezes, que você é a pessoa mais importante para mim nesse mundo. Eu amo você e sempre te amarei. ― disse Rael olhando a garota. Natalia já estava acreditando. Ela facilmente ligou as peças e o pouco que Rael falou já foi o suficiente para provar.

― Rael! ― ela se jogou nele chorando e o abraçou com todas as forças que seu corpo teria. Rael teve um pouco de sofrimento porque a irmã já estava no sexto reino também. Ela tinha passado no dia anterior para surpreender Rael.

                Natalia chorava como uma criança agarrada no pescoço dele. Rael apertava ela contra o próprio peito fechando os olhos.

                Os dois ficaram naquele estado por vários minutos. Até a garota soltar Rael lentamente. Ela não estava mais se importando.

― Eu pensei que nunca mais te veria… ― disse a garota sem jeito, ela começou a limpar as próprias lagrimas.

― Natalia, ninguém sabe sobre isso, você precisa manter segredo. Se eles descobrirem sobre mim antes do tempo mandarão me matar de novo. ― disse Rael, olhando para a irmã com um olhar sério. Diferente dela ele já estava bem mais controlado agora.

― Como você sabe que foram eles?

― Você ainda não conhece os pais que tem? Você mesma viu o que eles fizeram com você durante todo esse tempo. Como ainda pode duvidar deles? ― perguntou Rael. A garota ficou olhando de lado, mas os olhos deprimidos mostravam que Rael estava certo.

― Fingiram que seriam um sequestro, naquela noite nem havia guardas na muralha, foi tudo uma armação. Antes de me matar eles disseram que foram eles. Baseado em tudo que vivi aqui dentro e que você mesma viu sabe que eles fizeram isso ― continuou Rael.

― Eu achava que você tinha se perdido na floresta, era o que a mãe dizia quando eu perguntava sobre você. ― disse Natalia olhando de lado.

― Quando eu cheguei a esse lugar, meu plano era tirar você e destruir todos. ― disse Rael, fazendo Natalia se virar surpresa para ele de volta. ― Sim irmã, eu pretendo me vingar, e minha vingança não seria nada bonita, ainda mais depois do que eles fizeram você passar na mão daquele desgraçado. ― disse Rael.

― Rael o que você vai fazer? ― perguntou ela preocupada.

― Agora não vou fazer nada porque não tenho poder suficiente, mas uma hora eu vou cobrar pelo que eles fizeram, isso você pode ter certeza ― disse Rael. Natalia olhou para o lado e ficou em silêncio por um momento. Então depois de se alegrar por Rael ser ele mesmo, ela começou a pensar nos últimos fatos sobre eles. Ela estava casada com o próprio irmão e andaram fazendo coisas bem estranhas juntos.

                Natalia olhou sem jeito para Rael. Agora que ela pensava sobre as coisas que fizeram juntos, e isso a deixou um pouco envergonhada.

― Natalia, o que foi?

― Nós somos irmãos e nos casamos, nós nos beijamos. ― disse ela e virou-se.

― Sim… Isso preocupa você? ― perguntou Rael olhando ela normalmente. Diferente da irmã ele enfrentou aquela situação logo no primeiro beijo deles, então para ele já era muito mais fácil aceitar. Natalia voltou a olhar Rael e percebeu que ele nem se quer olhava diferente pra ela, ele estava completamente normal.

― Você não se importa com isso? ― perguntou ela.

― O que foi que eu disse na primeira vez que te beijei? Você ainda se lembra? Não importa o que acontecesse depois, eu te amaria de qualquer maneira que você quisesse. Se lembra? ― perguntou Rael e Natalia certamente se lembrou.

― Foi culpa minha, eu fiz você fazer aquilo, você nem queria. ― disse ela sem jeito e levou as mãos a própria boca.

― Não! Claro que não! Como eu não ia querer beijar você? ― perguntou Rael e estendeu as mãos segurando os braços da irmã. Ela voltou a olhar Rael novamente com aquela mesma dúvida no olhar e baixou a mão da boca.

― Rael você quis mesmo fazer isso? Foi vontade sua se casar comigo? Ou foi só para me proteger? ― perguntou ela se lembrando do que havia combinado com Mara naquele dia.

― O que eu sinto não importa. ― disse Rael, deixando a irmã surpresa: ― Tudo o que importa é o que você sente. ― disse ele. Natalia mordeu os lábios. Ela não estava com nenhum nojo de Rael estar tocando nela ou de já ter sido beijada por ele, mas ela se sentia um pouco estranha.

― Diga a verdade pra mim Rael, eu me sinto tão confusa. ― disse a garota.

― A verdade? Não existe uma, existe apenas o seu desejo. Se você me disser que seu desejo é ser minha esposa eu a amarei dessa maneira, se você me disser que não quer mais isso então eu a amarei como uma irmã. Se você me disser que nada disso importa e só quer ficar ao meu lado eu a amarei das duas maneiras. De qualquer forma eu jamais deixarei de amar você. ― disse Rael e sorriu calorosamente para a garota.

― Mas o que eu penso não deveria ser o que decide isso… ― Natalia ainda continuava com vergonha. Porque ela também queria a opinião de Rael.

― Lembra naquela tarde que as meninas riram de mim na cidade? Disseram que eu jamais teria uma esposa? Lembra o que você disse pra me defender? ― perguntou Rael, fazendo Natalia se virar de volta pra ele. ― Você disse que quando crescesse se casaria comigo. Elas ficaram tudo sem saber o que falar e se retiraram ― lembrou Rael. Natalia olhou de lado mais uma vez. Ela tinha mesmo dito isso quando era criança porque se importava muito com Rael.

― Você ainda se lembra disso! ― disse ela um tanto surpresa.

― Eu jamais me esqueci. ― disse Rael de volta.

Os dois voltaram a ficar em silêncio novamente.

― O que incomoda você, Natalia? ― perguntou Rael.

― Nós somos irmãos Rael, e você não me diz nada, você só diz que tudo que importa é o que eu sinto. Eu também quero saber como você se sente sobre isso. ― disse ela sem olhar para Rael.

― Eu estou deixando escolher, não percebe? ― perguntou Rael e ela se virou de volta o olhando: ― Eu já disse muitas vezes o que sinto por você. Você é a pessoa mais gentil que conheço nesse mundo, e é a garota mais linda também. Eu estou sim querendo ter você como esposa, mas isso não depende só de mim, depende de você também, de como você se sente. E se você me disser que não quer nada disso eu não vou me magoar, ainda vou continuar protegendo você da mesma forma que antes. E eu prometo que eu jamais deixarei nada acontecer a você, mesmo que você se torne minha esposa de verdade ou permaneça sendo apenas minha irmã. A decisão é sua. E não importa a sua escolha, eu seguirei ela. ― quando Rael acabou de dizer aquelas palavras Natalia voltou a ficar em silêncio pensando.

Rael não queria dizer que eles não eram irmãos de sangue. Ele já estava decidido a dar uma chance real para ela, dizer aquilo agora, era quase como um apelo para ela escolher ficar com ele, por isso ele decidiu ocultar esse fato.

― Eu me apaixonei por você desde o momento em que você apareceu. ― disse ela sem olhar para Rael. ― Eu me sinto muito estranha agora sabendo da verdade, mas ainda assim eu não quero acabar com isso, mesmo sabendo que sou sua irmã, eu quero ser sua esposa, eu quero ser uma parte maior na sua vida. ― ela voltou a olhar Rael timidamente. O coração dela pulsava levemente no peito.

―Então você será minha esposa. ― disse Rael sorrindo e passou a mão no rosto da irmã.

― Eu tenho vergonha Rael, quando os outros descobrirem vão nos achar estranhos. ― disse ela sem jeito admitindo o que sentia.

― E desde quando o que os outros pensam importa? ― perguntou Rael avançando com o rosto na direção da irmã. Ela não recuou, fechou os olhos junto com Rael e os dois começaram a se beijar levemente.

                Foi um beijo leve, apenas com pouco toque dos lábios. Logo Rael se afastou deixando ela para que pudesse pensar em paz.

― Temos três dias sozinhos nessa casa. Bom se você estiver cansada pode ir dormir, eu acho que vou tomar uma água. ― disse Rael se levantando. Ele jamais pensaria em tomar a irmã para si agora, a decisão dela era a única coisa que ele queria.

― Rael… ― disse Natalia parando ele: ― Se eu serei sua esposa, então nós teremos que consumar o ato… ― disse ela olhando para Rael: ― Você não está pensando em fugir não é? ― a pergunta dela deixou Rael desconcentrado.

― Natalia, você está pronta pra isso? ― perguntou Rael um pouco surpreso.

― É nossa lua de mel, eu tenho que estar. ― disse ela. Rael ia dizer sobre a idade dela ser ainda menor de dezesseis, mas como não havia risco nenhum de gravidez então ele não poderia danificar o corpo dela de qualquer modo. O único empecilho era se lembrar de Heitor. Mas isso ele não ia dizer.

― Não precisamos fazer isso agora, podemos esperar um tempo até que você esteja mais preparada. ― disse Rael.

― Eu estou preparada! ― disse a garota e chegou a gritar. Ela odiava dormir e acordar apavorada, ela sempre tinha pesadelos horríveis: ― Eu preciso fazer isso. Eu preciso! ― ela repetiu e continuou firme encarando Rael.

― Natalia você está bem? ― perguntou Rael preocupado.

― Eu não estou bem, Rael! Todas as noites eu tenho pesadelos horríveis e acordo chorando. Eu lembro daquele monstro imundo todas as vezes. Eu só não tenho pesadelos quando você está comigo. É por isso que quero que você faça isso comigo, eu quero tirar ele da minha cabeça. Eu quero esquecer aquilo para sempre. Se é pra eu sonhar alguma vez a noite, que seja com você. ― disse ela se acalmando. Rael então entendeu o porque dela está um pouco desesperada.

― Tudo bem Natalia. Se é o que você quer, faremos… ― disse Rael voltando a se sentar ao lado dela. Embora ele não soubesse como começar aquilo.

― Você falando assim faz parecer que não quer… ― disse a garota de volta um pouco chateada.

― Eu só não quero assustar nem forçar você. ― se explicou Rael.

― Eu não estou sendo forçada, é um desejo meu, Rael.

― Eu gosto que você me chame pelo nome, mas tome cuidado pra não esquecer e me chamar assim na frente dos outros depois. ― observou ele.

― É verdade, desculpe. Do que devo te chamar então? ― perguntou ela.

― Do que você quiser, menos pelo nome. ― disse Rael.

― Se quiser me chame de marido como a Mara faz, acho que não tem problema. ― disse Rael.

― Ela não vai ficar brava?

― Acho que não… ― disse Rael depois de pensar um pouco.

― Rael… Quero dizer, marido… Você gosta dela? Ou se casou por alguma outra razão?

― No começo ela me forçava com ameaças, mas ao longo do tempo ela foi parando de ser uma idiota e passou a ser melhor. Eu não tinha planos bons em relação a ela, mas ela foi se tornando mais aceitável até o ponto em que eu acabei gostando dela de verdade. Hoje em dia eu a amo, mas não sei como irá reagir quando eu contar a verdade. ― explicou Rael.

― Quando pretende fazer isso? ― perguntou Natalia.

― Depois que eu resolver alguns problemas. Não é só ela que vai saber, também pretendo contar para Rayger e para Neide.

― Pra eles também? Por quê?

― Porque se Mara se descontrolar e ficar furiosa comigo, eles vão evitar que ela abra a boca. Esses dois me devem e serão a garantia que ela irá ficar de boca fechada.

― Ela não vai falar Rael… marido, ela gosta de você. ― disse Natalia.

― Que ela gosta eu até sei, mas eu não sei o quanto. ― disse Rael.

― Ela me coagiu pra convencer você a não se casar com outras mulheres. ― admitiu Natalia.

― Ah ela sempre fala essas besteiras. ― disse Rael sem parecer dar importância.

― Mas ela está certa. Quanto mais você se casa, mais longe você fica da gente. Rae…marido, você pretende se casar muitas vezes? ― perguntou Natalia.

― Então, você quer fazer isso agora? ― perguntou Rael aproximando o rosto da garota. Aquilo era pra mudar de assunto e claro que ele conseguiu. Natalia ficou toda envergonhada e recuou levemente o rosto. O coração dela que estava calmo voltou a disparar.

― Quero sim. ― respondeu ela mesmo assim encarando Rael de volta. Apesar de Rael ter feito aquilo para mudar de assunto, era também para realizar o desejo dela. Se ela queria fazer ele, com certeza não iria deixá-la esperando. Os dois começaram a se beijar enquanto Rael foi deitando por cima dela gentilmente.


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