O Herdeiro do Mundo

100 - Opiniões

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

A tarde finalmente chegou. Rael não quis almoçar no casarão do patriarca. Ele preferiu comer na barca com os homens e Thais. Ele obviamente continuava evitando ao máximo ficar perto de Samantha, depois do que tinha ocorrido ele não queria de forma nenhuma dar qualquer chance de algo estranho ocorrer outra vez.

                Conforme a tarde veio, um carregamento das primeiras espadas de Ureno foi preparada. Uma caixa inteira dela foi trazida para a barca, ela seria vendida pelas cidades afim de coletar mais dinheiro e comprar mais cristais para a construções de outras.

                O patriarca veio agradecer pessoalmente uma ultima vez a Rael e deu a Thais uma generosa recompensa por ter trazido Rael, pedindo a ela, que levasse Rael em segurança até a Ilha do Vulcão.

                Perto do fim do dia a barca já estava partindo. Thais havia dito que demoraria dois dias para chegar até a ilha, então isso dava tempo de sobra a Rael para ele voltar em dia para o casamento com a irmã.

                O patriarca, Mara, Samantha, Neide e Rayger vieram se despedir de Rael e desejar boa sorte. Rayger e o patriarca deram um aperto de mão e um abraço amigável em Rael. Neide e Mara deram um beijo no rosto de Rael e quando foi a vez de Samantha, a última, Rael cobriu os lábios com as mãos deixando a moça furiosa.

― Você não tem vergonha na cara de fazer isso com a filha do patriarca? ― bufou ela se virando de lado irritada, fazendo biquinho. Alguns riram, mas os homens da barca que acompanharam a cena ficaram morrendo de inveja.

― Eu não sei quais são seus planos, então é melhor se prevenir. ― disse Rael ainda com a mão na boca.

― Eu não tenho plano nenhum! Nem vou beijá-lo. Apenas me dê um beijo no rosto e encerramos essa história ― propôs a garota ainda virada de lado. Ela era uma moça nova mas não era burra, ela sabia que Rael estava se fazendo de difícil porque não queria ficar com ela, seus avós também vieram dizer que ele não era lá muito bom pra ela, mas quem deveria escolher não seria ela? Oras…

― Filha vamos embora, deixe Rael partir em paz ― chamou o pai.

― Eu só saio daqui depois que ele me der um beijo no rosto. ― continuou a garota insistindo virada de lado. Todos olharam para Rael, qual era o problema de dar um beijo no rosto de uma bela garota? Ninguém estava entendendo aquilo além da família que já tinha em mente o comportamento anterior de Samantha.

― Me dá sua palavra que você não fazer nada de estranho? ― perguntou Rael acanhadamente. O engraçado da situação é que os dois pareciam duas crianças um com o outro. As idades até eram semelhantes, mas as experiências eram diferentes.

― Isso não é problema, a palavra eu dou ― disse ela toda séria e mantendo sua posição de desprezo, ela parecia estar odiando a forma como Rael estava a tratando.

― Que seja, se você tentar me enganar eu nunca mais confiarei em você. ― disse Rael tirando a mão da boca e se aproximando do rosto dela.

                Os olhos de Samantha brilharam como se fosse uma caçadora vendo sua presa cair em sua armadilha. Ela virou o rosto rapidamente emparelhando de lado com o de Rael e mais uma vez o segurou com as mãos avançando com os lábios.

                Dessa vez a garota foi mais insistente. Além de beijar Rael na frente dos outros sem se importar ela ainda força a língua em Rael. O beijo é claro não durou muito, foi coisa de dez segundos ao qual Rael ficou preso até consegui se soltar, mas ainda foi possível ver baba escorrendo da boca dos dois. Tudo bem, Rael tinha que admitir que por mais estranho que fosse o hálito dela era maravilhoso e a boca dela era bem macia mesmo sendo, neh, sua quase filha. Mas ele jamais podia aceitar se relacionar com ela.

― Você me deu sua palavra! ― reclamou Rael passando a mão na boca para limpar a baba. Ele teria cuspido no chão, mas isso ia ser constrangedor para a garota. Ia mostrar que ele tinha nojo dela e não era bem isso que ele queria passar na frente de tantas pessoas.

― Eu nunca prometi nada a você. ― disse ela com um sorriso. ― Agora case-se comigo e fique aqui, você já me beijou duas vezes ― disse ela como se tivesse vencido uma disputa. O beijo com ela chegou a ser mais violento do que propriamente suave.

                Todos ficaram atordoados, geralmente é o homem que pede a mulher em casamento e não ocontrário…

― Casar com você por me beijar duas vezes? Você só pode está brincando. Eu estou indo para sua informação e nunca mais voltarei. ― disse Rael irritado.

― Você não ousaria! Você tomou meus lábios duas vezes e ainda quer fazer isso? Assuma sua responsabilidade já! ― bufou a moça de volta.

― Eu tomei? Não foi você que se atirou a força em mim? Ora essa! ― reclamou Rael. Ninguém entendia a situação direito, mas aqueles dois discutindo era algo muito engraçado e mesmo parecendo estranho vários começaram a ri.

Samantha ficou um pouco vermelha de vergonha. Ela tinha toda aquela coragem porque soube que Rael estava indo embora e não sabia nada sobre ele, nem onde ele morava. Ela só sabia que ele estaria indo para uma ilha. No mundo de hoje era fácil pessoas morrerem, ela já tinha perdido muitos familiares e conhecidos. Além disso era muito difícil encontrar um homem tão lindo e atraente quanto Rael, ainda mais um homem que salvou sua mãe.

― Já chega filha! Volte pra cá! ― dessa vez foi a mãe que avançou sobre ela e a puxou pelo ombro.

― Solta mãe! Ele tem que aceitar o casamento! Ele tem que aceitar! Eu finalmente encontrei alguém pelo qual tenho interesse. ― reclamava a garota sendo levada por Mara.

― Vai deixar ela assim? Sabe que ela gosta mesmo de você não é? Uma garota não faria isso na frente de um monte de pessoas se não tivesse desesperada. ― disse Thais baixinho do lado no ouvido de Rael.

― Eu não tenho tempo para brincar nesse lugar. Preciso voltar pra casa. ― disse Rael sem pensar duas vezes enquanto ficava vendo Mara arrastar a filha para fora da barca.

― Rael! Se mudar de ideia sobre o pedido que fiz antes a você só precisa voltar e me dizer. ― disse o patriarca quando a barca já estava começando a partir.

― Não espere porque isso não vai acontecer nunca. ― garantiu Rael gritando de volta.

Buuuuuuuuom!

Os motores da barca foram ligados e todos que não iriam desceram. Samanta ficou ali embaixo parada sendo segurada por trás pela mãe. Aquela tinha sido sua primeira experiência amorosa, a garota não entendia porque Rael não a queria, qualquer outro homem solteiro teria se ajoelhado nos pés dela. A mãe sempre a ensinou que beleza e poder em uma mulher tornam qualquer uma irresistível.

_____________________________________________________________________________

                A inveja dos homens na barca com Rael era óbvia. Todos estavam sem entender como Rael conseguia recusar tal beldade que, ainda por cima, era filha do homem mais poderoso do clã Torres.

― Você passou momentos interessantes com aquela família. Apenas em um dia o patriarca praticamente ofereceu a filha dele a você, a própria queria ser sua. E ainda por cima ganhou o respeito completo dos pais da esposa do patriarca. ― observou Thais se sentando nas grades de proteção da barca do lado de Rael que estava parando em pé vendo o clã Torres se afastar.

― Eu já estou cheio de problemas no momento. Prefiro manter distância de novos. ― explicou Rael. Agora ele estava voltando a pensar em como seria quando ele se casasse com Natalia.

 Estava chegando a hora dele finalmente contar toda a verdade a garota e aquilo fazia ele ficar tenso. Porque por um lado ele queria mesmo continuar no mesmo relacionamento com a irmã e por outro ele tinha medo que ela ficasse com raiva dele. Rael conseguia se sentir estranho quando pensava em Samantha mas o mesmo não ocorria quando pensava em Natalia.

_____________________________________________________________________________

                Naquela noite foi inevitável Rael não se drogar para poder dormir de novo. Porque ele ficava constantemente pensando em Natalia e em tudo o que rolou entre os dois. Rael não podia dizer se estava apaixonado ou apenas preocupado com a própria irmã.

                Na biblioteca ele ficou aliviado por encontrar Violeta nas mesas de novo. Ele já chegou contando tudo que havia acontecido. Violeta que adorava ouvir os contos da atrapalhada vida de Rael começou a rir, principalmente da parte da Samanta.

― Ela me atacou duas vezes! Eu não sabia o que fazer Violeta, e você ainda fica rindo.

― Rael você tem o sangue do Imperador Demônio nas veias que herdou de mim. Você é mais atraente que homens normais, juntando o fato que você salvou a mãe da garota ela realmente se interessou por você. Ainda mais em um mundo onde homens bons devem ser um pouco difícil de encontrar. ― explicou Mara.

― Oh, você vai me dizer que seria normal eu tê-la como esposa também, não? Porque as vezes penso que mesmo se eu tentasse namorar a Neide, mãe de Mara, você ainda acharia normal. ― disse Rael se lembrando da brincadeira que fez com Rayger.

― Por mim você pode pegar quem você quiser, eu nunca dei qualquer limite a você. ― explicou Violeta.

― Violeta, eu preciso mesmo de sua opinião sincera dessa vez, é sobre minha irmã. ― disse Rael se lembrando do casamento.

― Nos já não conversamos sobre isso? Você já não tinha se decidido?

― Nós também já tínhamos conversado sobre minha vingança, mas só esses dias atrás você me veio com uma opinião diferente. ― disse Rael se lembrando.

― Sim, eu me lembro disso. ― disse Violeta.

― Então seja sincera, o que você faria se fosse eu? Violeta, sem brincadeira e sem esconder nada dessa vez. ― exigiu Rael. Violeta ficou séria olhando de lado. Havia sim uma coisa que ela estava escondendo e preferia deixar daquele jeito, afinal situações divertidas eram tão legais, mas isso era muito importante para o Rael e ela não podia continuar guardando segredo.

― Rael, você não é irmão de sangue de Natalia ― disse ela, chocando Rael.

― Como é?

― Lembra daqueles anos em que eu saía? ― perguntou Violeta dando alguns passos em volta. ― Eu investiguei sua família conforme as histórias que você me contou. Só para confirmar que você não tinha o mesmo sangue de sua família. Natalia sim é filha dos seus pais, mas você não é. Na época que eu descobri sobre isso, juntando com sua herança, eu já tinha pensado na possibilidade de renascimento, mas não tinha certeza até então. ― explicou Violeta.

― Então Natalia e eu não somos mesmo irmãos de sangue? ― Rael perguntou para confirmar. Seu coração deu uma leve tremulada.

― Bom, de sangue vocês não são, mas são de criação. Isso não apaga seus laços familiares com ela. Vocês foram criados juntos, tem afeto especial um pelo outro e toda a relação comum de irmãos. É por isso que foi tão fácil vocês se apaixonarem. Bom, se você quer que sua irmã aceite isso mais facilmente está é a resposta que procura. Você deve contar isso a ela. Mas eu tenho certeza que não será necessário, mesmo que você não conte ela ainda irá ficar com você. Pelo menos essa é minha opinião depois de tudo que você me contou que ela já passou. ― disse Violeta.

― Violeta! Por que você nunca me conta essas coisas? Mesmo que não pareça importante tem ideia de quanta diferença faz? ― perguntou Rael inconformado.

― Porque eu acho divertido ver você passando por situações constrangedoras. ― admitiu Violeta com um lindo sorriso.

― Se eu não sou filho deles? Então sou filho de quem?

― Rael eu não sei, você é renascido. Você apenas usou o corpo daquela mulher pra voltar ao mundo. E como você citou antes, sua versão que seria você é completamente diferente, você tomou o lugar dele quando renasceu nesse mundo normal, enquanto no alternativo ele nasceu normalmente e teve uma vida comum sem problemas.

― Por que isso é tão diferente?

― Porque o herdeiro só pode existir um em toda a existência, não pode haver dois nem mesmo entre mundos diferentes. Tanto o herdeiro como suas guardiãs. ― disse Violeta e Rael se lembrou que perguntou a Thais sobre o evento.

― Agora tudo faz sentido. Perguntei a Thais se ela conhecia alguma Isabela. Isabela foi afinal uma importante discípula do clã Sangnos e considerada uma grande traidora. Ela também participou do evento em que eu a matei Thais. No mundo alternativo, Thais não só nunca ouviu falar em nenhuma Isabela, como também não encontrou Isabela no evento, também não tiveram o ataque na ilha. O evento ocorreu sem problemas, porque aqueles homens no mundo normal vieram por Isabela e Isabela não existiu no mundo alternativo ― explicou Rael.

― E ai está a prova de que eu estou certa. ― disse Violeta.

― Violeta eu estou a caminho da ilha. Se tudo der certo chegarei em dois dias. Você poderia me esperar lá? Eu preciso retornar a tempo para o meu casamento. ― explicou Rael.

― Sem problema.

― Outra coisa que eu queria saber. Como eu contei antes, Neide implantou uma marca em mim. Eles chamaram de marca familiar. Você por acaso fez isso em mim também? ― perguntou Rael. Afinal Violeta era muito mais poderosa que Neide e Rayger, se tivesse feito a marca porque ela daria a ele um Chamado Espiritual. Porque ela precisaria dar isso a ele se sempre ia saber como ele estaria?

― Eu sei o que é mas não posso marcar você ― disse Violeta um pouco sem jeito.

― Como você não pode?

― A marca só pode ser passada de uma pessoa superior a uma inferior, como você é superior a mim, eu não posso marcá-lo. ― explicou Violeta.

― Então você está me dizendo que Neide é mais forte que você? ― perguntou Rael confuso.

― Não seja bobo! Isso não tem haver com poder. ― reclamou ela.

― Então tem haver com o que?

― Eu quis dizer, ― disse Violeta se recuperando depois de se atrapalhar: ― tem haver sim com poder, o fato de eu não poder marcá-lo é porque você me despertou, colocando dessa forma você está acima de mim entendeu?

― Ah… Eu acho que entendi… ― disse Rael que ainda sentia que ela não estava contando tudo.

― Violeta, me conte a verdade. ― disse Rael pensando que talvez isso fosse funcionar. Sempre que ele fazia perguntas a Isabela a mesma respondia.

― Essa é a verdade. Eu não posso marcar você, porque você me despertou. ― explicou ela. Rael ficou um pouco decepcionado mas não disse nada.

― No fim eu não consegui despertar a outra de você nesse mundo. É uma pena. ― disse Rael e se escorou de costas na mesa.

― Em todo caso você já está voltando. Como você explicou, estando nessa barca eles não poderão atacá-lo, então tudo ficará bem. ― disse Violeta aliviada.

― É, no fim acho que seria estranho ter duas de você, até pra você mesma. ― disse Rael sorrindo pra ela.

― Eu verdadeiramente não me importaria, até queria saber qual seria a sensação. ― disse Violeta que sempre, sempre, gostava de situações estranhas mesmo que fossem envolvendo ela mesmo, e pensar nisso fazia ela rir. Qual delas seria a mais hilária? Ela não conseguia evitar esse estranho pensamento. Ficou se perguntando como seria interessante indagar de coisas engraçadas de uma para a outra. Que loucura…

― Descobriu algo mais sobre o Senhor Cristalandio?

― Nada relevante. Só que, antes dele ser banido, ele lançou seus cristais geradores de servos em vários pequenos mundos na esperança de um dia ser libertado pelos mesmos. Os outros deuses se reuniram e foram atrás desses cristais destruindo a maioria, mas como você ver, eles não fizeram um bom trabalho.

― Quando voltarmos eu tenho que te passar um endereço pra você procurar e destruir esses cristais antes que eles apareçam no nosso mundo ― disse Rael lembrando de Rayger.

― Mesmo que eles apareçam aqui você não tem que se preocupar, eu não deixarei eles se multiplicarem. Diferente da sua vingança, nisso eu irei trabalhar. ― disse Violeta porque ela mesma admitia que eles eram perigosos.

― Violeta, como eu disse antes. O meu outro eu Rael, o verdadeiro não sofreu nas mãos dos pais, nem mesmo Natalia. Os dois foram na verdade muito bem tratados. Você acha que minha vingança está mesmo certa. Eu estive pensando, será que tudo não acabou sendo culpa do meu estado na época? Eu sei que não faz muito sentido mas esse pensamento acabou me vindo em mente ― disse Rael.

―Rael, não seja bobo. As pessoas só mostram suas verdadeiras garras quando tem a chance. Se eles fossem pessoas boas em nenhuma das vidas teria tratado você mal. Eles trataram o outro e sua irmã bem, porque foi favorável a eles. O seu outro você tinha a capacidade de crescer e se tornar importante, então eles iriam apoiá-lo, mas isso não quer dizer que eles fossem bons pais. Sua irmã só foi bem tratada porque o outro Rael estava garantindo o futuro da família, então não haveria porque pôr pressão sobre ela. ― explicou Violeta.

― Então eles são mesmo maus não é?

― Você pergunta isso pra mim? Por acaso o seu trauma sobre o que fez com a Thais está atrapalhando seu raciocínio agora? Rael você já se esqueceu do que passou?

― Eu só quero ter certeza de que isso é a coisa certa. ― disse Rael olhando de lado.

― Essa é a única coisa certa Rael, não se engane ― disse Violeta. E saiu de lado deixando Rael pensando.

                Rael ficou olhando a mesa em frente. Ele odiava os pais profundamente e os homens que o mataram. Mesmo depois de ouvir a história de Thais aquele ódio não tinha desaparecido, mas a ideia de destruir todo o clã ele já não tinha mais.

 

 


Não esqueça de curtir Herdeiro do Mundo!




O site Central de Mangás é gratuito e sempre será!

Para colaborar com a existencia do site, por favor,
desative o bloqueador de anúncios.