O Herdeiro do Mundo

099 - Ritual Brilho da Lua

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

                Rael acompanhou Rayger até o quintal do casarão ao fundo, onde continha um jardim cheio de rosas no espaço de terra cercado por uma parede de cimento. Havia também alguns vasos espalhados pelos cantos das paredes e até em cima.

― Em toda minha vida eu nunca pensei que estivesse danificando o corpo da minha filha. Eu jamais imaginei que um dia teria esse resultado. Ainda bem que você apareceu. ― disse Rayger. Rael ficou em silêncio e ele voltou a falar.

― Tudo que fiz foi pelo bem da minha filha, foi pensando no futuro dela. Eu nunca pensei que o Ritual Brilho da Lua fosse destruir a saúde dela como aconteceu.

― Você forçou anos de cultivo em uma pessoa de idade tão nova, o que esperava? Ao longo do tempo você danificou os Pontos de Poder e as veias dela. ― disse Rael.

― Sim, imaginei isso. Desde que não era mais possível sentir nenhum poder no corpo dela esse foi o meu pensamento. Eu achei que minha filha não iria sobreviver e se sobrevivesse não teria mais nenhuma cultivação. ― disse Rayger com um olhar triste se lembrando.

― E era isso que deveria ter acontecido. Eu consegui restaurar o cultivo dela porque tenho um poder especial que pessoas normais não tem. Bom, em todo caso isso já passou. Agora, me fale sobre esse ritual. ― pediu Rael.

― O ritual exige três passos. Um é sangue de dragão, o segundo é o sacrifício de uma besta Demônio Noturno de Garras. Ambas as coisas como você deve imaginar são muito difíceis. Por ultimo a data exata.

― Data exata?

― O ritual é chamado de Brilho da Lua porque só pode ser feito quando a lua entra em algum tipo de determinado estado estranho, que chamamos de Brilho da Lua. Na noite certa, quando a lua está prestes a entrar no estado correto, o sangue de dragão começa a ficar quente, até ele começar a borbulhar. Essa é a hora correta de fazer o ritual. A besta sacrificada passa todo o seu poder para o corpo escolhido. Tem anos que a lua vem na forma correta até dez vezes ou mais, enquanto outros ela não vem. Essa é a parte imprevisível do ritual, sem mencionar que achar a besta Demônio Noturno de Garras também não é uma tarefa fácil. ― explicou Rayger.

― Você tinha mais dois filhos, por que apenas Mara servia para o ritual? ― perguntou Rael, se lembrando que em uma conversa Mara cita que os irmãos não foram abençoados no nascimento.

― Mara nasceu no dia certo de se fazer o ritual, por essa razão o corpo dela conseguia suportar o ritual sem passar por nenhum problema.

― E como você sabe? Quando ela nasceu você já tinha em mente fazer tudo isso?

― Não. Para saber basta você fazer a pessoa tomar um copo de água com cinco gotas de sangue de dragão. Se a pessoa permanecer lúcida, então ela nasceu no dia certo. Todas as outras pessoas ficarão inconscientes por um pouco de tempo. Sendo que qualquer pessoa com mais de cinquenta anos não poderá mais fazer o ritual.

― E onde você fazia esse ritual?

― Em um lugar que chamamos de Caverna do Céu. Tenho acesso a ela através de um cristal de teleporte em minha mansão. ― explicou Rayger.

― Poderia me mostrar o lugar? ― perguntou Rael que visitava esse lugar muitas vezes e jamais desconfiou de nada.

― Posso, venha comigo. ― disse Rayger tomando a frente de novo.

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                Já dentro da Caverna do Céu depois de usarem o cristal de teleporte. Rayger guiou Rael por uma das entradas mais altas. Antes de chegar no final onde daria para ver as nuvens, Rayger tocou na parede empurrando uma pedra azul redonda que não parecia fazer muita diferença até Rael ver o que aconteceu em seguida. Uma passagem secreta se abriu conforme as paredes da caverna se moveram.

                Rayger e Rael subiram por túneis em forma de caracol por quase dois minutos inteiros e finalmente foram sair no topo do lugar.

                O lugar estava tão alto que já não era possível ver nuvens, mesmo o tempo estando nublado embaixo aqui eles estavam sobre um forte Sol da manhã.

― O ritual precisa ser feito sobre a presença da lua, por isso era necessário um lugar alto. ― disse Rayger esperando Rael conferir olhando curioso em volta.

― Esse caixão de pedra é onde eu deitava minha filha dormindo ― disse Rayger apontando a frente. Havia o tal caixão de pedra aberto e embaixo dele um enorme símbolo do que parecia ser uma gigante bola, com vários raios apontando para o centro onde ficava o caixão. Mais ao fundo tinha uma pequena bola grudada na bola grande. Os rastros que formavam o símbolo eram como pequenos corredores no chão, semelhantes aos que havia na porta da casa de Rita.

― Aqui era sacrificado o Demônio Noturno de Garras, ― disse Rayger apontando para o círculo menor: ― o sangue corria por toda essa parte até cercar o caixão. Quando o efeito atingia minha filha, o corpo dela era erguido no ar e recebia todo o poder que fluía do sangue. Ela chegava a ser suspensa no ar por cerca de um metro, isso durava durante toda uma hora. Depois ela voltava ao normal e dormia um ou dois dias, só então acordava. Quando ela acordava sempre estava muito mais poderosa do que antes.

― Como o senhor descobriu sobre esse ritual?

― Meu pai passou a mim antes de falecer. ― disse ele e sacou um livro azul do bracelete entregando a Rael. O livro estava bem desgastado. ― Aí tem tudo que você precisa saber e só existe esse livro no mundo todo. Eu não preciso mais disso caso queira ficar. ― disse Rayger.

― E o sangue de dragão, quanto o senhor ainda tem? ― perguntou Rael.

― Isso é tudo que eu tenho agora. ― disse ele entregando a Rael dois potes de vidro de um litro cada. Um deles estava cheio e o outro pela metade. O sangue era bem vermelho e tinha um tipo de pó brilhante como ouro por todo ele.

― Não sei porque você precisa saber dessa coisas, mas isso é a ultima coisa que eu tinha. Só guardei o sangue porque ele é usado para muitas outras coisas e foi uma herança de família passada por meu pai assim como o livro. Se é do seu interesse pode ficar com os dois. ― disse Rayger.

― Eu agradeço ― disse Rael guardando tudo no bracelete.

― Poderia fazer mais uma coisa pra mim?

― O que seria?

― Se você pudesse escrever para você mesmo do passado, o que escreveria? O que você diria a você mesmo para fazê-lo desistir desse ritual antes de chegar a esse ponto? ― perguntou Rael. Ele não precisava disso, já tinha duas coisas que provariam, mas em todo caso seria bom levar algo a mais. Mara tinha se tornado sua esposa e ele jamais deixaria ela ficar na mesma situação dessa outra.

― Pode me dizer por que isso é importante? ― perguntou Rayger.

― Se eu contar a verdade talvez o senhor não acredite. Mas vou tentar: Eu vim de outro mundo onde a sua filha tem apenas dezenove anos e ainda está no sexto reino nível sete. Acabou de ocorrer o torneio familiar nesses dias, ainda tenho tempo de conversar com seu outro você do outro lado e salvar sua filha antes que ela chegue nesse estado. ― explicou Rael.

― Isso foi um ano antes do surgimento dos Devoradores! ― disse Rayger de olhos arregalados e olhou em volta. Rael ficou abismado porque pareceu que ele acreditou.

― Milha filha estava com o mesmo cultivo que você citou na chegada do torneio, mas não houve um torneio naquele ano, quando ela e meu sobrinho se apaixonaram todos declararam que não iam disputar pelo poder. Eles foram aclamados como casal de ouro. ― disse Rayger.

― E você aceitou tudo tão facilmente? ― perguntou Rael.

― Minha filha se apaixonou por ele. Quando mais nova ela sempre andava com ele e Natalia, foi assim que os dois se aproximaram tão rápido. Quando eu percebi ela já estava se tornando noiva dele. De qualquer modo tudo deu certo então nunca reclamei de nada, minha filha não foi forçada a se casar. ― disse Rayger e retirou dois papeis do bolso, fez surgir uma mesa e uma cadeira do bracelete, sentou-se e começou a escrever. Em poucos minutos ele escreveu os dois bilhetes. Rael não entendeu porque ele estava escrevendo dois, mas não disse nada. Também não ficou do lado espiando. Enquanto Rayger escrevia ele se aproximou da beirada e ficou olhando as paisagens por cima das nuvens.

― Terminei. ― disse Rayger fazendo Rael volta para perto dele.

― Um é pra você. Ele tem todos os dados de onde os Devoradores surgirão a primeira vez. As primeiras cidades atacadas, as datas e os horários. O outro é para mim, quando entregar isso eu com certeza acreditarei ― disse Rayger. O bilhete dele ele colocou em um envelope e lacrou com a própria energia de modo que só ele mesmo ou alguém muito próximo poderia remover sem problemas. Rael não poderia ver o conteúdo. Se Rael tentasse ver o conteúdo a força a carta seria destruída. Rayger era um homem muito esperto no final.

― O senhor acreditou em mim? ― perguntou Rael surpreso.

― É claro que eu acreditei. Você salvou a vida da minha filha. Se você dissesse que morreu e voltou dos mortos eu ainda acreditaria. ― disse ele como se fosse uma piada. Mas para Rael não era porque ele se lembrou de sua desgraça.

― Na verdade, isso também já aconteceu comigo. ― disse Rael com um jeito sério e um pouco chateado por se lembrar. Na mesma hora Rayger ficou sério.

― Eu só estava brincando em todo caso. ― se desculpou Rayger.

― O senhor não acreditaria em mim tão facilmente. Diga a verdade, por que acreditou em mim? ― insistiu Rael.

― Porque você está com nossa marca em seu braço ― disse Rayger olhando o braço direito de Rael. ― Essa marca só colocamos em pessoas que consideramos da família. Eu e minha esposa nunca colocaríamos isso em alguém que não confiássemos ― disse ele chocando Rael. Então ele se lembrou de quando Neide tocou o braço dele naquela noite.

― Foi sua esposa que me marcou no outro mundo. Por que vocês me marcariam e qual é o propósito dessa marca? ― perguntou Rael.

― É pra saber se você está bem, se está com problemas, onde você está, essas coisas. ― disse Rayger bem casualmente. Rael ficou sem jeito olhando para o lado.

― Quando foi que o senhor percebeu sobre a marca? ― perguntou Rael voltando a olhar ele.

― Isso foi estranho. No primeiro momento você estava em um local distante, na ilha do vulcão, depois você foi parar na cidade de Elunia a da Rita como você me passou e então veio parar na capital depois de um dia.

― E o senhor e sua mulher, porque não foram atrás de mim?

― Nós viemos. Sentimos sua presença mas estávamos muito longe na hora. Quando meu sobrinho me avisou que você salvou minha filha eu e minha mulher já começamos a chorar no caminho. E durante o processo nós conversamos e concordamos que nenhum de nós dois teríamos marcado você. Mesmo assim você carregava nossa marca, eu e minha esposa tínhamos planos de perguntar mas não saberíamos como, ia parecer uma interrogação para a pessoa que salvou nossa filha. Quando você me contou que veio de outro mundo tudo fez sentido.

― Mas e seus filhos? Netos eles não tem a marca? Isso não poderia ser confundido?

― Não porque estão todos mortos. Os únicos vivos são Mara, Samantha e o meu sobrinho. Estávamos recebendo quatro sinais e um deles era você, que não deveria existir nesse mundo. Por isso eu acreditei. ― explicou Rayger. Rael ficou pasmo. Ele não imaginou que as coisas iam ocorrer dessa forma.

― Eu sei que o senhor ainda vai contar isso para a sua esposa, mas poderia evitar contar pra Mara ou Samantha? Eu não quero as duas pensando coisas estranhas ao meu respeito. Alias não conte a mais ninguém, nem mesmo ao patriarca ― disse Rael.

― Fique tranquilo, nós não contaremos a mais ninguém. ― concordou ele. ― Agora posso perguntar o que você seria de nós no outro mundo? Porque para ter nossa marca você com certeza deveria ser alguém próximo. ― perguntou ele.

― Sou o marido de sua filha. ― disse Rael.

― Isso explica porque você não quer que eu conte isso aos outros. Mas você tem o mesmo nome do patriarca, não seria possível você ser ele, não é?

― Eu não sou ele. Não se preocupe, mas acho que você já percebeu. Eu nem sou parecido com ele.

― Se você não é ele, ― disse a voz de Neide e ela subiu o túnel surgindo surpreendendo Rael: ― Posso perguntar que destino levou meu genro daqui no outro mundo? ― Neide fez a pergunta e parou ao lado de Rayger esperando a resposta.

― No outro mundo esse homem não existe, só isso que posso dizer. ― explicou Rael.

― E por que você tem o mesmo nome dele? ― insistiu Neide.

― Seria uma história complicada de contar e nisso eu não quero falar. Espero que não se importem. ― disse Rael. Como ele confiava nesses dois ele não se importou de dizer tantas coisas. Mas também havia um limite no que ele deveria dizer.

― Obrigada por salvar nossa filha. ― disse Neide sorrindo meigamente e acrescentou ― espero que no outro mundo eu esteja tratando você bem.

― Me trata muito bem, as vezes até melhor que minha esposa. ― brincou Rael e olhou para Rayger. Rayger se sentiu estranhamente perturbado e coçou a curta barbicha sem jeito com os dedos.

― Também, bonito como você é aposto que ninguém está perdoando. ― brincou Neide passando a mão na cabeça de Rael. Ela entendeu a provocação.

―Vocês dois vão devagar ai, esse assunto já não está mais agradando! ― bufou Rayger. Depois Rael e Neide riram. Todos voltaram a ficar sérios segundos depois.

― Deve ser estranho pra você andar por aqui vendo Mara com outro homem. ― observou Neide. Ela tinha ouvido toda a conversa e isso já estava claro para Rael.

― Eu não tenho tempo para ter ciúmes com uma mulher de outro mundo que não é minha esposa. To preocupado é com a neta de vocês dando em cima de mim como uma maluca. Ela já chegou até a me beijar. ― admitiu Rael. Neide começou a rir porque ela entendeu a situação no mesmo instante. Rayger também acabou rindo um pouco.

― De todo modo ela não é nada sua aqui. Não haveria problema algum se envolver com ela. ― disse Rayger depois de ficar sério.

― Olhando por esse lado eu concordo. ― disse Neide.

― Experimenta pensar em namorar uma garota que é filha de sua mulher, mesmo que seja com outro homem. ― disse Rael, olhando Rayger que formou uma meia careta e ficou sério de novo. ― Ou até você Neide, namorar um rapaz filho de Rayger com outra mulher. ― Neide acabou rindo.

― Agora sim ficou estranho. ― concordou ela rindo. Rayger fez um sim depois de pensar um pouco.

― Outra coisa que eu gostaria de saber. Como é que se faz pra enganar a idade no pilar do registro? Ou na pedra? ― perguntou Rael se lembrando de Heitor.

― Isso muitos já sabem. Você precisa cancelar o registro da pessoa que deseja alterar. Então você pede para criar um novo registro, leva uma pessoa com a idade que deseja ter. Na hora de tocar no pilar, a outra pessoa deve começar, a primeira coisa a ser registrada é a idade da pessoa. O pilar manda tira a mão e pergunta o nome. Então nesse momento a pessoa se afasta e entra a original respondendo o nome completo como é pedido, o pilar pede para por a mão a segunda vez e medir o cultivo para terminar o registro. È nessa segunda rodada que o registro é completado. É um processo simples, mas se houver as pessoas devidas de olho em toda a situação ninguém jamais conseguiria enganar o registro.

― Então esse registro é uma bosta. ― disse Rael.

― Geralmente ele funciona, mas as pessoas sempre acabam cedendo para o dinheiro. ― disse Neide.

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                Depois daquilo os três voltaram para a cidade. Rael preferiu ir atrás de Thais do que voltar para a mansão, ele estava com receio de ser atacado novamente por Samantha. Até mandou os dois botarem juízo na garota antes de se despedir deles.

                Rael foi encontrar Thais no ferreiro do clã. Ele já estava forjando as armas pedidas junto com dois ajudantes.

― Você já está por aqui? Como foi conseguiu curar a esposa do patriarca? ― perguntou Thais que ainda não sabia de nada.

― Consegui sim, ela já está bem. ― disse Rael normalmente. Ele ainda não se sentia a vontade com ela porque sempre lembrava da merda que fez.

― Conseguiu de verdade? ― perguntou ela surpresa.

― Porque não vai dar uma olhada você mesmo? ― perguntou Rael. Thais sorriu animada.

― Eu acredito em você, viu? Se você estava mal por alguma coisa e agora fez um bem você já está aprendendo a ser uma pessoa melhor. Continue assim ― disse ela mantendo um sorriso.

― Você se importaria de me falar mais de você? Do seu passado. De onde você deixava a irmã? Qual cidade ela ficava? ― perguntou Rael surpreendendo ela.

― Que tipo de pergunta é essa?

― Eu fiquei pensando nisso a noite toda e estava curioso. Se você não me responder essas coisas acho que não vou conseguir tirar isso da cabeça ― explicou Rael.

― Se você quer saber eu conto sim…

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                No mundo normal Natalia estava cada vez mais preocupada. Rael não chegava e a data de seu casamento se aproximava cada vez mais. Ela estava começando a se sentir aflita.

Mara era outra que não estava nenhum pouco bem. Ela estava cheia de saudades do marido e bastante preocupada. Mesmo seus pais dizendo que ele voltaria logo.

― Quando eu voltar aqui eu não quero ver você parada ai. Se tem tempo para se preocupar então cultive. Quando seu noivo voltar não vai gostar de saber que você não aproveitou cada momento que teve ― reclamou Mara enquanto passava por ela na sala. Isso porque Natalia parecia ficar muito deprimida as vezes.

                Natalia entendeu que ela estava certa, ficar pensando nisso não iria ajudar. Ela também precisava surpreender Rael quando ele voltasse. Então ela se levantou e subiu as escadas indo para o quarto cultivar.

 


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