O Herdeiro do Mundo

096 - Arrependido

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Rael ficou muito surpreso. A mulher de olhos verdes na sua frente era definitivamente a mulher que ele matou no outro mundo.

Ela não ficou reparando o olhar de Rael, baixou a mão e tocou o bracelete desativando a armadura, junto com o comando mental. Em segundos, a armadura dela foi removida do corpo sendo chupada pelo bracelete que se tremeu durante o curto processo. Agora ela estava usando uma calça apertada de couro escura e uma blusa azul curta, deixando uma parte de seu umbigo de fora. O corpo dela tinha um físico perfeito e curvas no ponto, como os de uma bela mulher. Ela era bastante sensual, mas não era isso que Rael estava pensando. Ele ainda estava olhando ela com aquele olhar de confusão.

― Que cara é essa? Nunca viu uma mulher antes? ― perguntou ela em um tom curioso.

― Desculpe não é isso, eu… ― Rael se virou de lado. ― Eu só fiquei pensando no porque você me salvou. ― disse Rael sem jeito e baixou o rosto.

― Eu te salvei porque você precisava ser salvo. Se fosse eu ali, tenho certeza que você teria feito o mesmo. ― disse ela passando por Rael e depois parou se virando. ― Antes que eu me esqueça, me chamo Thais. ― ela se apresentou e esperou que Rael se apresentasse de volta, mas ele ainda estava trabalhado seus pensamentos.

― Você me ouviu? Se me ouviu, diga seu nome. ― perguntou ela de volta.

― Me chamo Rael. ― disse ele voltando a olhar pra ela.

― O mesmo nome do patriarca do clã Torres? Que surpresa. ― disse ela exibindo um sorriso de lábios fechados. Nesse momento a barca deu uma tremulada e começou a se mover para frente.

― Pra onde estamos indo? ― perguntou Rael curioso depois de olhar em volta e se virar novamente para Thais.

― Para a capital. Venha me fazer companhia, quero conversar com você. ― disse ela se virando e saindo caminhando. Rael começou a acompanhá-la enquanto corria os olhos pelo lugar.

Essa barca voadora não era tão grande quando a outra em que ele esteve no mundo normal. Ela tinha pouquíssimas pessoas e todos pareciam ser trabalhadores, todos homens, tirando apenas Thais. Eles separavam caixas, faziam contagens e abriam para conferir, depois fechavam de novo. Havia varias dessas enormes caixas espalhadas pelo piso de madeira da barca. O que Rael notou é que ninguém parecia preocupado com o fato de que poderiam receber ataques, ele também observou que apenas Thais tinha o bracelete com armadura mágica.

― Você não tem medo de ter essa barca invadida? Eu vi vários Devoradores voando um tempo atrás ― disse Rael que não aguentou mais a curiosidade.

― Eles não entram aqui. Essa é a primeira barca construída com partes de cristal Ureno. ― disse ela, fazendo uma breve parada e bateu o pé no chão. ― O casco abaixo tem uma grande quantidade desse cristal que por alguma razão mantém os Devoradores afastados.

― Agora me diga, o que você estava fazendo sozinho fora de uma cidade a noite? ― perguntou ela, olhando curiosa para Rael. Os dois agora começaram a subir uma escada, estavam se dirigindo para a cabine.

― Eu me perdi. ― mentiu Rael.

― Isso não é lugar para se perder, se não fosse por mim você poderia ter morrido. ― disse ela olhando de lado. Rael se sentia cada vez mais sem graça quando era lembrado de ser salvo por ela.

Entrando na cabine, eles encontraram um homem adulto esparramado em uma cadeira larga com um pano por cima dos olhos. Ele estava tentando dormir.

― Dormindo de novo, capitão Luiz! ― gritou Thais e deu um chute na cadeira. O homem se assustou quase caindo e tirou o pano do rosto as pressas, encontrando Thais e Rael o olhando.

― Mas que merda mulher! Vai encher o saco de outro. Puta que pariu! ― o homem se levantou furioso de seu lugar e saiu mal humorado. Nem chegou a falar com ninguém, só passou por eles e começou a descer as escadas a pressa. Thais ficou rindo com a mão na boca.

― Liga não, ele é assim mesmo. Outra hora te apresento. ― disse ela e deu alguns passos para o fundo. Havia um painel de controle com alguns botões, manivelas, e um grande volante. Na parede acima do painel, havia uma tela de vidro mostrando o que parecia ser um enorme mapa e um pequeno pontinho piscando que não saia do lugar.

― Parece que vamos chegar na capital quando já tiver quase amanhecendo. ― observou ela. Depois ela se virou e puxou uma cadeira colocando a frente de Rael.

― Sente-se ai vamos conversar um pouco. ― enquanto disse isso ela já puxou uma para si e se sentou. Rael sentou-se em seguida.

― Desde que eu me apresentei você parece tão acanhado, gostou de mim? ―perguntou ela com um meio sorriso. Rael não sabia se ela estava brincando ou falando sério. ― Ou será que você é apenas tímido mesmo?

― Eu só pensei que fosse morrer naquela hora. ― disse Rael para se livrar do assunto. A mente dele continuava o atormentando perguntando porque ele matou essa mulher no passado.

― Não fique assim, você está vivo e é o que importa agora. ― disse ela com um sorriso.

― Acho que sim. ― disse Rael ainda naquele estado.

― Agora, como te salvei, acho que tenho o direito de saber. Como é que um quinto reino como você pode voar? Era uma técnica? E o que era aquela habilidade capaz de clonar a si mesmo?

― Eu sou uma pessoa diferente e tenho uma mestra anormal. Eu aprendi a voar porque tenho um grande controle dos elementos. Assim como você viu que também me curei. Eu posso manipular qualquer elemento que eu quiser ― disse Rael pela primeira vez admitindo tal coisa. Ele não viu nenhum risco em fazer isso. O mundo aqui não parecia ter tempo de se preocupar com esse tipo de coisa.

― Você está falando sério? ― perguntou Thais com um ar admirado.

― Sim quer ver? ― Rael estendeu a palma da mão esquerda com a luva. Ele começou mostrando fogo, algumas faíscas queimando calmamente por cima da luva, depois passou a terra, uma pequena pedra soltando poeira que girava em cima da mão de Rael, em seguida uma pequena bola de raios, logo após uma pequena bolha de água que ficava girando e mostrando formas diferentes, depois uma formação de ventos formando um pequeno ciclone nas mãos de Rael…

A cada demonstração Thais abria mais a boca, ela pensou que Rael estaria brincando mas ele não estava, ele podia mesmo manipular os nove elementos. Rael só não demonstrou a escuridão que seria o décimo. Quando Rael quebrou suas restrições ele liberou todos os usos desses elementos em cem por cento, não apenas isso, ele tornou esses elementos especiais os manipulando até melhor que outras pessoas, mas o elemento escuridão ele não tinha conseguido quebrar as restrições, quando ele invocava os símbolos só surgiam nove porque o da escuridão não aparecia.

― Simplesmente incrível! ― disse Thais de olhos arregalados quando Rael acabou de demonstrar todos.  Depois ele fechou a mão encerrando.

― E o clone é uma herança da minha mestra, não tem haver com técnicas foi algo que ela passou para mim ― disse Rael terminando as explicações.

― Eu nunca tinha ouvido fala em ninguém capaz de manipular todos os elementos, não é atoa que você pode mesmo voar no quinto reino. ― elogiou ela com um sorriso e acrescentou ― E quem seria sua mestra?

― Você não a conheceria, ela se chama Violeta. Agora ela provavelmente está dormindo ― disse Rael pensando na Violeta desse mundo.

―Violeta, Violeta, Violeta… ― se perguntou Thais, tentando lembrar enquanto olhava de lado. Claro que nada veio a mente dela.

― É, eu não conheço. ― admitiu ela por fim.

― E você? Você não era do clã Sangnos? Não estou vendo você trajando roupas com a taça de vinho. ― observou Rael falando do símbolo do clã dela.

― Você já topou comigo por ai? Deve fazer tempo hein, porque já não sou mais do clã Sangnos faz dez anos, desde que minha irmã morreu. ― disse ela.

― Uma irmã? ― perguntou Rael curioso.

― É uma história para outro dia. ― disse ela em um ar mais pensativo do que sério.

― Como sua irmã morreu? Poderia me contar? E porque exatamente saiu do clã? ― insistiu Rael. Ele não se conformava com aquele pensamento de ter tirado a vida de uma inocente.

― Quer mesmo saber? Já aviso que é uma história chata. ― disse ela fazendo uma meia careta mordendo os lábios e levantando as sobrancelhas.

― Eu adoro histórias chatas. ― disse Rael de volta. Thais ficou alguns segundos em silêncio como se tivesse pensando em como ia começar.

― Eu tinha uma irmã mais nova de doze anos, na época que aconteceu isso eu tinha vinte. Meus pais trabalhavam para comerciantes cumprindo entregas, naquela noite eu e minha irmã estávamos acompanhando o trabalho deles. Fomos emboscados por um grupo de bandidos enquanto atravessamos algumas montanhas. Meus pais mandaram eu proteger minha irmã e, em vez disso, eu saí da carruagem para lutar junto com eles. Um bandido entrou na carruagem e atirou na minha irmã um dardo envenenado. Minha irmã desmaiou e não acordava, embora o local atingido pelo dado já tinha até se curado horas depois. Descobriram mais tarde que ele estava com um veneno chamado Noite Escura.

― Noite escura… ― repetiu Rael como se ele já conhecesse esse veneno. Era um veneno um pouco parecido com Sonhos Pesados.

― Sim, não sei se você conhece, é um veneno que mantém a pessoa apagada por alguns anos e depois tira a vida. Ela atinge diretamente as veias espirituais do corpo deixando a pessoa toda dormente o que leva a um sono profundo. O único tratamento dessa doença é um chá feito com sangue de dragão e alguns outros recursos. Como você já deve imaginar o sangue de dragão é a coisa mais rara desse mundo sendo a mais cara também. Os dragões estão extintos há centenas de anos e são poucos, mas bem poucos mesmo aqueles que ainda possuem esse sangue, basicamente são heranças de família.

― E depois, o que houve?

― Nem todo o dinheiro que meus pais poderiam ganhar em vida nos faria ter acesso ao sangue. Para isso eu primeiro pensei em me vender como uma escrava na época, só para salvar minha irmã. Não deu muito certo, o valor que eles ofereciam por mim apesar de ser alto não ajudaria e uma vez que eu fosse escrava não poderia mais lutar pela minha irmã. ― disse ela fazendo uma pausa. Rael ficou apenas em silêncio.

― Fiz um teste para entrar no clã Sangnos e consegui. Eu tinha uma boa cultivação e era uma grande gênia. Dentro de um clã poderoso eu teria acesso a recursos e dinheiro, eles pagavam bem seus discípulos. Durante os anos seguintes eu juntei cada moeda que conseguia e me esforcei o máximo que pude, venci até mesmo o evento secreto que ocorria a cada quatro anos na cidade Améria. Meu grupo ficou em segundo lugar. ― disse ela com um sorriso. Rael se lembrou que foi nesse evento que ele tirou a vida dela e abaixou o rosto olhando os próprios pés. Rael ficou ansioso.

― Aquele foi o último evento realizado naquela cidade, porque um ano depois eu perdi minha irmã para a doença. Ela morreu com dezoito anos, sem nunca mais ver a luz do Sol e toda culpa foi minha. Tem ideia do quanto isso ainda me dói? Eu nem gosto de conversar sobre isso porque já me sinto péssima. ― disse ela. Rael continuou olhando o chão.

― Então tudo que você fez foi pelo bem da sua irmã? Você até se tornaria uma escrava se pudesse ter salvo ela? ― perguntou Rael mas não teve coragem de levantar o rosto. O tom de Rael já não soava natural, ele parecia está entalado com algo na garganta, sem mencionar o seu peito que não parava de queimar.

― Foi. Depois fiquei ainda algum tempo no clã e saí, não fazia mais sentido continuar em um lugar que eu não gostava. Agora estou aqui trabalhando nessa barca voadora de nome Esperança. Fazemos entregas de cristais que protegem vidas, quando posso e vejo pessoas com problemas eu desço e ajudo como fiz com você hoje. Minha irmã morreu mas minha vida continua, eu ainda posso fazer a diferença no mundo. ― disse ela.

― Me perdoe… ― disse Rael se levantando e se virou. Ele não aguentou mais e saiu pela porta aberta seguindo as escadas e subindo.

― Rael? O que houve? ― perguntou Thais se levantando atrás.

Enquanto subia os olhos de Rael se encheram de lágrimas, ele não suportou a idéia de ter matado uma mulher inocente, uma pessoa boa.

No topo da cabine Rael se escorou nas grades que cercavam e ficou olhando as nuvens por fora da barca. Thais se aproximou de lado e olhou Rael.

― Você tá chorando? Por quê? ― perguntou ela.

― Eu sou um lixo! Passei a vida inteira pensando em uma vingança cega que não quis ver a verdadeira realidade do mundo. ― disse Rael.

― Ainda estamos falando de mim? ― perguntou ela confusa e preocupada.

― Se você soubesse o que eu já fiz, nem olharia na minha cara. ― disse Rael. Ele estava muito irritado consigo mesmo.

― Nada é tão ruim que não possa ser perdoado. Seja lá o que você tenha feito por ai, qualquer mal não sei, faça o bem a partir de agora e assim você se sentirá melhor! ― disse ela e bateu as mãos suavemente nas costas de Rael.

― Você não entenderia… ― disse Rael e ficou em silêncio.

― Não preciso entender. Eu posso ver nos seus olhos que você já está arrependido, seja lá o que tenha feito. ― disse ela.

― Se você pudesse ver sua irmã outra vez, se houvesse uma maneira, você iria querer vê-la? ― perguntou Rael, olhando ela de lado. Ele já estava conseguindo controlar as lágrimas que pararam de descer.

― Não sei, eu não consigo me perdoar pelo que fiz minha irmã passar, e todas as vezes que me lembro dela, é deitada sem vida naquela cama. Acho que não tenho o direito de vê-la de novo, mesmo se pudesse depois de tudo que fiz.

― Você não é culpada, como poderia adivinhar que um bandido poderia fazer isso com ela? Sem mencionar que esse veneno não deveria estar sendo carregado por um mero bandido. Essa história está muito estranha também. ― disse Rael, mas nem pensou muito.

― Depois que eu conto isso todos dizem a mesma coisa. Mas sabe, é diferente quando você está lá vivendo a situação, você sabe que errou, as outras pessoas de fora não entendem isso. ― disse ela.

― Sei bem como é. ― disse Rael se lembrando que a matou.

― Então, de onde você é? Se quiser eu posso te dar uma carona. ― perguntou ela. Até aquele momento ela não tinha tocado naquele assunto.

― Posso ir com você para a capital? Quero ver como estão as coisas por lá, quero conhecer o tal patriarca Rael e todo o resto se possível. ― disse Rael. Sim, ele ficou curioso em imaginar como seria a vida dele sem ser aleijado.

― Bom, ai depende do temperamento do patriarca, eu até posso levar você, mas ele não anda muito receptivo no momento. ― disse Thais.

― Por quê? ― perguntou Rael com um ar curioso. Ele sabia que geralmente o patriarca era um homem muito ocupado pois tinha que lidar com os problemas de família. Mas a maneira que Thais disse, fez parecer que havia algo mais grave por trás.

― É por causa da esposa dele. Não são todos que sabem, mas ela está de cama a mais de um ano. Correm os boatos que a cultivação dela está danificada.

― Mara? Como?

― Ninguém sabe o que aconteceu. Quando ela atingiu o décimo segundo reino, Lendário Poder das Leis, ela simplesmente adoeceu. O pai dela está desesperado atrás de uma cura. ― disse Thais.

― Se ela está com problemas nas veias, talvez eu possa ajudar. Eu entendo um pouco sobre isso. Se você pode falar com o patriarca, deixe ele saber sobre mim. ― propôs Rael.

― Está mesmo falando sério? Você por acaso é médico? Porque você não me parece um. ― disse ela analisando Rael de novo. O olhar de Rael continuou firme e fixo no dela. Ela soube no mesmo instante que ele não estava mentindo.

― Eu não mentiria sobre isso. ― disse Rael.

― Eu percebi. Tudo bem, eu falo com ele e quando descer você vem comigo. Quero ver se você pode mesmo ajudar. ― disse ela.

― Outra coisa que quero saber: Como você soube que eu não era uma daquelas coisas? Foi sentindo minha energia? ― perguntou Rael.

― Seria impossível se eu tivesse usado esse método. Foi com isso: ― disse ela e retirou do bracelete um pequeno binóculo branco e entregou para Rael. ― Este é um Visor de Devorador, foi construído nesses últimos anos. Quando você usa ele é possível diferenciar pessoas normais de pessoas possuídas. As pessoas possuídas aparecem em vermelho, enquanto as normais em laranja, foi assim que eu achei você. ― explicou ela. Rael já estava testando, ele tinha levado para os olhos e estava olhando as regiões próximas. Além da visão ser bem melhor e distante, era possível mesmo ver os pontos vermelhos andando pela floresta.

― Isso é bem legal. ― disse Rael devolvendo a dona.

― Foi o patriarca com seu nome que me deu de presente. ― disse ela sorrindo e guardando de volta no bracelete.

Rael se virou para olhando os céus e ficou pensando o que deveria fazer. Se ele conseguisse voltar ele iria atrás dessa irmã dela, iria curá-la e ajudá-la em qualquer coisa que ela pudesse. Essa era a única coisa que ele poderia fazer de certo, para compensar a merda cometida.


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