O Herdeiro do Mundo

094 - Rita Adulta

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Na biblioteca, Violeta continuava desesperada de um lado a outro. Se Rael tivesse morrido então ela seria atirada de volta na câmera, mas isso até o momento não tinha ocorrido. Se Rael tinha sido transformado em uma daquelas coisas, era provável que ela continuasse sobre o mesmo estado atual, viva, mas tendo que acompanhar um homem que não seria mais ele mesmo.

Quando Rael apareceu andando calmamente, Violeta quase se desmanchou em alegria e correu o abraçando toda aliviada. Ela tinha pensado um milhão de coisas diferentes enquanto não via Rael.

― Você me deixou tão preocupada. Tem ideia de como fiquei aqui esperando você voltar? ― perguntou Violeta.

Ela não tinha medo quando Rael ficava no antigo clã dele, porque ela sabia que ele sempre iria se controlar, o problema, era que agora ele estava em mundo que ela não tinha alcance. Em mundo perigoso.

― Eu não tinha como prever o que aconteceu hoje… ― disse Rael sem jeito.

― Como você foi acordado?

― Eu fui atacado pela Rita adulta. ― disse Rael. Violeta sorriu aliviada e acabou rindo sozinha. E pensar que ela ficou tão preocupada enquanto Rael estava se dando bem…

― Você sempre ri de situações assim. ― reclamou Rael. Ele estava um pouco chateado porque em vez de aparentar ciúmes ela estava rindo. Isso deixava Rael um pouco bolado. Porque até mesmo Mara tinha ciúmes e ele reclamava mas achava um máximo.

― Não é todo dia que esse tipo de coisa ocorre. ― ela continuou rindo, pondo uma mão na boca. Rael riu por um segundo porque o riso de Violeta tentando se conter era contagiante. Depois ele conseguiu ficar sério.

― Violeta, temos que nos focar naquelas coisas, como estávamos dizendo antes. ― lembrou Rael do inevitável. Violeta conseguiu ficar séria e mordeu os próprios lábios para se forçar a cessar a risada. Ela ficou pensando na cena de uma Rita adulta atacando um rapaz de quinze anos, e enquanto isso ela estava aqui morrendo de preocupação, achando que ele estava em perigo mortal. Violeta acabou levando as duas mãos pra boca e começou a gargalha, ela não tinha piedade de ri nem dela mesma.

― Violeta! Hahaha ― Rael reclamou mas riu junto. ― Qual é a graça, afinal de contas?

― Tudo é engraçado rsrsrs. Tudo! ― disse ela tentando se recompor.

― Sério, Violeta. Nós não temos a noite toda, você sabe disso. ― disse Rael. Finalmente ela conseguiu ficar séria.

― Comece a trabalhar os pensamentos. Esse lugar está sobre o seu domínio. ― disse Violeta.

― Sim eu me lembro disso. ― disse Rael fechando os olhos…

Pensar em devoradores não deu em nada de útil. Isso levou Rael e Violeta a uma prateleira não muito útil.

― Pense em veias de cristal. ― Violeta deu outra ideia.

Minutos depois Rael segurava um livro de capa vermelha nas mãos. Havia um homem magro de pele branca sentado em um trono de cristais. Na cabeça dele tinha uma formação de cristais vermelhos como se fosse os próprios cabelos pontudos para cima. Na mão direita ele segurava um cedro dourado cheio de pequenas pedras de cristais vermelhos grudados com as pontas pra fora. O titulo do livro se chamava: Senhor do Sangue de Cristais.

― Senhor Cristalandio. ― disse Violeta assim que o reconheceu. Ela só precisou ver a foto.

― Você o conhece? ― perguntou Rael. Violeta olhava avoada para o lado, como se buscasse suas memórias.

― Eu não consegui me lembrar antes, mas o Imperador Demônio tinha um livro sobre ele, uma vez ele me deixou ler, o livro tinha essa mesma imagem.

― O que eu vou encontrar aqui? ― perguntou Rael abrindo as páginas. O livro era enorme.

― Acho que tudo que precisamos saber. ― disse Violeta, olhando o livro nas mãos de Rael.

― E o que você sabe de ante mão? ― perguntou Rael se dirigindo com ela para as mesas enquanto já seguia folheando o livro. O livro não tinha apenas textos, ele tinha imagens também de coisas precisas da história, até mesmo paisagens.

― O que eu sei é que ele foi banido. O Imperador Demônio me contou que para bani-lo foi necessário a ajuda de todos os deuses e seres mais poderosos, até o Herdeiro estava presente no dia. Isso é tudo que me lembro. ― disse Violeta.

― Que ótimo. Estou sozinho em um mundo enfrentando uma existência que nem meu antigo eu podia enfrentar sozinho? Isso é maravilhoso. ― disse Rael ironicamente.

― Se ele estivesse vivo, eu acho que todas as pessoas desse mundo já teriam sido transformadas. ― disse Violeta.

― Até de manhã eu não vou poder sair mesmo. Então vamos ver o que encontramos aqui. ― disse Rael.

Naquela noite os dois folhearam juntos aquele grande livro por varias horas procurando informações e fraquezas do mesmo.

A classe do Senhor Cristalandio, estava no mesmo patamar do Herdeiro. Isso porque ele conseguia usar o poder de seus servos como se fosse dele mesmo quando quisesse. E como já sabiam, seus servos aumentavam como se fossem um vírus.

― Esse cara tem quatro filhos, dois homens e duas mulheres. Como seriam eles? Deformados como o pai cheio de cristais pela cabeça? ― perguntou Rael depois de ler o trecho. Aqui não tinha imagens deles.

― Não faço ideia. Não sei nem como uma mulher ia se interessar por um homem desses ― disse Violeta.

― Em falar em filhos… Violeta, você pode ter filhos? ― perguntou Rael.

― Não posso. Minha vitalidade mudou depois que recebi a essência demônio. O Imperador fez isso, ele não queria que nós engravidássemos para não ficarmos nunca feias, nem para ter risco de termos um filho homem que tentasse nos possuir. ― disse Violeta.

― Esse cara, ele era tão doente assim? ― perguntou Rael surpreso. Eles até pararam a leitura.

― Vamos voltar ao que importa. ― disse Violeta e baixou o rosto de volta pro livro. Rael ficou olhando o belo rosto dela por um tempo, ele teve um pensamento de compaixão por ela quando pensou sobre a vida que ela teve até aqui. Depois ele voltou a ler com ela, cada um deles analisava uma pagina de cada lado.


No outro dia Rael se levantou sem muitas respostas. O livro era tão grande, que mesmo ele e Violeta juntos não conseguiram achar nada importante que servisse para espantar ou lidar com os Devoradores.

Ele tinha sido acordado por Rita que passou pelo corredor e o chamou para tomar café. Depois de se vestir Rael seguiu para a cozinha.

Ele encontrou Nicolas já sentado na cadeira batendo com a colher na mesa brincando, chamando a atenção da mãe. Ele já falava mais bem poucas palavras. Quando ele viu Rael parando ao lado da mesa já ficou com medo e se aquietou em seu lugar.

― Não vá assustar meu filho de novo. ― disse ela de costas no fogão.

― Eu não fiz nada. ― disse Rael.

― Dormiu bem? ― perguntou ela.

― Sabe que eu teria dormindo muito melhor se você tivesse voltado pra cama ontem. ― Rael provocando ela de volta.

― Você tem a língua solta. ― disse ela rindo sem se virar.

― Você viu meu braço azul e não perguntou nada ontem no banheiro. Por que não perguntou? ― Rael quis saber.

― Se esqueceu da parte que isso é uma aventura? Se fosse algo importante você me diria. ― disse ela de volta. Rael gostou disso, porque na banheira ela não teve qualquer reação negativa ou curiosa com ele, não que isso fosse algo ruim, só era diferente do habitual de como as pessoas agiam quando descobriam sobre Rael.

― Só porque é uma aventura não quer dizer que você não precisa se preocupar. ― disse Rael avançando para as costas de Rita, ele a segurou com as duas mãos na cintura e tentou beijar o pescoço dela. Rita reagiu tentando fugir de Rael.

― Meu filho! Você é louco? Na frente dele não! ― ela reclamava empurrando Rael.

― O que tem isso? ― perguntou Rael usando sua força que era muito maior do que a dela e cheirando o pescoço de Rita. Rita lutou mas Rael era muito mais forte que ela. No fim ela acabou se deixando levar sem poder fazer nada e foi beijada nos lábios conforme Rael virou o rosto dela.

― Depois de ontem não será fácil você me tirar de perto de você. ― disse Rael soltando o queixo dela depois de dar outro beijo. Ela já não reclamou mais do filho.

― Você me trata assim? A minha versão mais nova do outro lado? ― perguntou Rita, voltando a mexer a panela com massa no fogão.

― Não exatamente.. ― disse Rael voltando para perto da mesa. ― Nós não tivemos muito tempo juntos depois que eu aprendi algumas coisas, e também você é muito nova. Eu não ousaria mesmo se tivesse muita vontade.

― Você vai voltar pra lá acreditando que eu serei ela. Tome cuidado, não vá assustar minha versão mais nova, Rael. ― disse Rita.


Depois do café, Rita foi armar a barraca de vendas e levou Nicolas com ela. Rael ficou dentro da casa sozinho para criar a barreira.

Quinze minutos depois a barreira com o mesmo símbolo em forma de oito foi criada. Rael marcou Nicolas nas costas e Rita no braço esquerdo como ela pediu. Depois marcou mais dez anéis a pedidos de Rita. Rael também podia passar sua marca para acessórios. Terminando isso.

Rael explicou o que queria fazer por ela, sobre arrumar as veias, os Pontos de poder e que ela poderia cultivar mesmo a noite quando fechasse a loja e já teria um excelente resultado. Rita acabou confiando e aceitando a ajuda de Rael. Ele praticamente passou metade da manhã arrumando as veias dela, liberando os pontos de poder, ensinando a cultivação do lobo de novo. Sem mencionar as varias pílulas que Rael preparou para ela.

― Quando for tomar a pílula tome longe do seu filho, porque ela tem um forte efeito inicial que você só ira controlar depois de cerca de uma hora. De preferência limpe um quarto e retire os moveis. Você poderá sempre usar o mesmo quarto para cultivar porque com a barreira as paredes, piso e teto suportarão sem problemas.

Depois de como os dois ficaram Rita não se importou em aceitar toda a ajuda de Rael. E a tarde depois do almoço foi difícil eles se despedirem. Porque Rita mesmo não querendo acabou se apegando um pouco, ela até chegou a perguntar se ele não poderia passar mais um dia com ela.

― Eu não posso. Eu vim aqui nesse mundo apenas para fazer uma coisa. Aquela proposta ainda está de pé. Eu posso levá-la em segurança para o outro mundo basta você esperar eu achar uma pessoa nesse. ― disse Rael segurando a mão dela.

― Eu não posso mesmo. ― ela disse a mesma palavra de antes. Os dois se despediram com um beijo e Rael partiu depois de balançar brincando a cabeça de Nicolas que ficou chorando. Rita quase bateu nele com raiva em seguida, mas Rael não fez forte, a criança é que tinha medo de Rael. Ele só não ajudou Nicolas porque era preciso ter pelo menos sete anos para fazer as liberações e todas as outras coisas mais.


No mundo verdadeiro Natalia e Mara estavam preocupadas. As duas estavam na mesa terminando o almoço e mal tinham comido. Rael havia saído desde a noite passada com a promessa que voltaria mais tarde e não tinha voltado até então. Mara já tinha até falado com os pais usando os anéis. Neide acreditava que Rael estava com a mestra dele e quando isso ocorria, ele não entrava mesmo em contato. Quando Rael estava com a mestra ele removia o anel tornando impossível o contato. Essa era a única explicação que Mara tinha.

Natalia foi a que ficou mais deprimida. Porque tirando Rael ela não tinha praticamente ninguém. Ela já tinha se acostumado a sair com ele e irem cultivar e sem isso, ela nem tinha permissão de entrar na Caverna do Céu da família de Mara.

― Ele vai voltar, ele já fez isso uma vez antes do nosso casamento. Parece que ele tem o prazer de nos fazer ficar esperando quando a data marcada vai se aproximando. ― disse Mara, notando que a prima estava muito receosa.

― Eu sei que ele volta. ― respondeu Natalia sem jeito forçando um sorriso comum para não preocupar a prima.

Havia uma regra simples nos casamentos. Se uma filha estivesse comprometida com um homem e esse homem faltasse ao casamento. O pai tinha o direito de exigir a filha de volta. Então se algo ocorresse e Rael se atrasasse. Romeo com certeza pegaria Natalia de volta sem pensar duas vezes.

― Ele ama você mais do que eu e não faltou no meu casamento. Você não precisa ter esse medo. ― disse Mara para tirar aquela sombra de preocupação de Natalia.

― Por que me diz isso prima? Você não sente ciúmes? ― perguntou Natalia preocupada.

― Sua idiota! É claro que eu tenho ciúmes mas o que vou fazer com isso? Meu marido continua achando esposas como estrelas no céu. ― bufou Mara de volta. Natalia apenas encolheu os braços e ficou em silêncio na cadeira. Mara não gostava quando a prima ficava com essa cara de medo.

― Prima nós temos que nos unir. O meu marido sempre escuta os seus pedidos. Se você pedir para ele não se casar com mais ninguém ele com certeza ouvirá. ― disse Mara, tendo uma ideia brilhante enquanto encarava Natalia com um ar animado.

― Eu não poderia pedi isso. ― disse Natalia sem jeito.

― O que você prefere? Dividir Samuel apenas comigo ou com dezenas de esposas? Prefere que ele passe um dia com você e outros vinte nove com cada uma das outras? ― perguntou Mara.

― É claro que não! Eu quero ele perto de mim. ― disse Natalia entendendo o pensamento de Mara. Mara deu um sorriso satisfeito mais para si mesmo do que para Natalia. Pelo menos ela poderia usar a prima dela para algo útil.

― Ótimo, quando ele voltar você conversará com ele. ― disse Mara. Natalia fez um sim concordando com Mara. Nesse ponto as duas concordavam.

― Bom, então levanta daí. Você vem comigo. ― disse Mara se pondo de pé em seguida.

― Pra onde vamos? ― perguntou Natalia obedecendo e se pondo de pé.

― Vou te levar pra Caverna do Céu, assim você pode cultivar. ― explicou Mara. Natalia sorriu animada.

― Mas meu marido disse que você também pode cultivar na casa se quiser não lembra? Por causa da barreira esse lugar agora aguenta. Bom isso é escolha sua.

― É mesmo! Então não tomarei seu tempo. Vou para o quarto ― disse Natalia saindo de lado. Mara ficou apenas olhando a prima se afastar. Ela continuava preocupada com Rael. Natalia também. As duas…


Enquanto cruzava a cidade saindo, Rael notou que o lugar estava com um ar mais sombrio. Pessoas desanimadas, tristes e solitárias vagavam. Pessoas ali que tinham perdido muitos entes queridos para os Devoradores.

Até os guardiões, que no outro mundo eram tão bem vistos e respeitados, trajando boas armaduras e armas, nesse mundo eles trajavam armaduras velhas e armas quase caindo aos pedaços. Sem mencionar os cultivos que eram baixíssimos. A força atual dos guardiões estava no sexto reino, um nível muito abaixo do mundo normal.

Rael ignorou tudo aquilo e partiu para fora da cidade. Ele nem foi muito longe e já convocou Ralf que surgiu animado esfregando o rosto no peito de Rael.

― Eu sei que você não sai muitas vezes, mas precisamos agilizar. Vamos voltar para o esconderijo. ― disse Rael e pulou nas costas de Ralf. Ralf esticou as asas, andou, começou a correr e saltou alto, batendo suas asas. Logo eles estavam ganhando os céus enquanto o vento batia forte sobre eles.

O dia estava com poucas nuvens e um forte Sol no céu.


Ralf não demorou muito para levar Rael ao local. Quando eles pousaram, Rael ficou chocado com a quantidade de corpos amontoados ali próximo a entrada, há cerca de uns cem metros a frente.

― Que porcaria é essa?! ― perguntou Rael, pulando de Ralf enquanto sentia um mal cheiro no ar. Ele e Ralf correram lado a lado para perto dos corpos. Conforme andou metade do percurso Rael parou porque já podia entender. Esses corpos tinham veias de cristais na pele e olhos cristalizados, eram a mesma descrição dos servos do Senhor Cristalandio como Violeta tinha o chamado.

― Por que tem uma pilha dessas coisas aqui fora? Tão perto da câmera de Violeta ― se perguntou Rael, curioso. Mas não avançou mais do que isso, o mal cheiro de podridão tinha ficado mais intenso. Alguns corpos pareciam ter dias enquanto outros eram mais recentes, alguns mais embaixo já estava bem secos quase nos ossos, sem menciona os bichos nojentos correndo entre os corpos. Se Rael chegassem mais perto do que aquilo ele poderia vomitar.

― Ralf, me espere na entrada da caverna, eu tenho que libertar Violeta. ― disse Rael sem pensar muito, se virou e voltou para a entrada ilusória da caverna.

A entrada era a mesma, Rael cruzou a rocha falsa e saiu no mesmo corredor escuro já conhecido. Ele só achou estranho que não sentiu nenhuma presença, principalmente porque a frente deveria ter uma série de bestas divinas protegendo o lugar. Caminhando calmamente, Rael chegou ao final do corredor que dava no imenso salão oval. Ele reparou que havia alguns corpos humanos pelo chão e parou curioso. Esses corpos não estavam com mal cheiro. Quando Rael pensou em chegar mais perto, um deles levantou a cabeça e seus olhos vermelhos cristalizados brilharam olhando Rael.

― Ah Não! ― pensou Rael recuando de costas e esbarrou numa pedra que saiu rolando fazendo barulho. Várias cabeças foram se erguendo uma após a outra e vários olhos vermelhos se abriram. Rael se virou e acelerou seus passos para fugir.


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