O Herdeiro do Mundo

091 - O Estranho Mundo

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Rael não entendia nada. Essa era definitivamente Rita, mas por que tudo estava tão diferente? Rael não conseguia parar de se perguntar.

― Sim, você ouviu muito bem. Esse é meu filho. ― repetiu Rita.

VUOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM!

VUOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM!

VUOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM!

Trombetas começaram a soar por vários cantos da cidade. As pessoas que passavam naquele momento pela rua já entraram em desespero. Havia algumas casas próximas e elas iam entrando em qualquer uma que viam aberta, mesmo em casas de pessoas que provavelmente não conheciam. Os moradores esperavam apenas os mais próximos entrarem e já fechavam as portas logo atrás. A cena deixou Rael um tanto quanto desconfortável porque ele percebeu que as pessoas estavam amedrontadas. Por que todas as pessoas estavam com tanto medo?

Rael sentiu a estranha presença que tinha sentindo antes com Violeta, mas dessa vez havia dezenas delas. Era um tipo de presença fria e ao mesmo tempo poderosa, embora Rael não pudesse dizer o quanto.

― Entra rápido! ― gritou Rita, abrindo espaço para Rael entrar. Um casal veio correndo e pulou tomando a frente de Rael. Rael não sabia o que estava acontecendo, mas entrou em seguida e Rita pôde fechar a porta atrás dele.

Rita começou a puxar as várias travas da porta de ambos os lados. O casal que tinha acabado de entrar ainda estavam ansiosos de olhos arregalados. Seguravam nas mãos um cristal azul. Rita se virou assim que acabou de fechar todas as travas da porta e entregou um cristal azul para o filho, em seguida já pegou outro para ela mesma. Todos olharam para Rael que era único sem cristal.

― Onde está seu cristal? ― perguntou Rita.

― Eu não tenho… ― disse Rael ainda naquele estado de confusão.

― Toma esse, aperta no peito. ― disse ela e já o forçou contra o peito de Rael. Rael recebeu o cristal e o segurou tomando o espaço da mão dela que o deixou em seguida. Todos estavam fazendo o mesmo, apertando o cristal contra o peito. Uma aura azulada irradiava cobrindo o peito de cada um. Rita já tinha pego outro e estava apertando também do lado da porta.

― Aaaaaaah! Socorro! Aaaaaah! ― o grito de um adulto masculino veio da rua e não parecia ser longe deles. Era um grito assustador e desesperado que arrepiou todos ali, até mesmo Rael. A pessoa por trás dele com certeza estaria com muito medo e sofrendo muito.

Rael com a mão livre puxou a trava de madeira, liberando o visor. Havia um tipo de poeira transparente espalhado no ar que para Rael não era nada, mas para todos os outros era muito escura. Rael conseguia ver um homem de costas do outro lado da rua forçando outro homem contra uma parede. Esse homem que o forçava, segurava com as duas mãos e o mordia na altura do pescoço. Rael pôde ver no pescoço atrás do homem que atacava o outro varias veias vermelhas de cristais.

― O que está acontecendo? ― perguntou Rael que estava absurdamente confuso.

― São os devoradores, será que você nunca viu? ― perguntou o homem do casal.

― É a primeira vez que vejo. ― disse Rael de volta e continuou olhando.

― E de onde você veio? Eles estão por toda parte. ― disse o mesmo homem.

― Não sei, acho que me perdi. ― disse Rael de volta.

O homem que estava sendo devorado já não estava mais vivo. Rael podia ver uma grande quantidade de sangue correndo pelo corpo e formando uma poça embaixo dos pés, se ele ainda estava de pé, era porque continuava sendo segurado contra a parede. Aquilo era muito assustador. O devorador continuava comendo o corpo do homem.

― O que você está vendo? ― perguntou Rita e encostou o rosto do lado de Rael tentando ver, mas ela não conseguia ver nada por causa da poeira escura.

Rael não sentiu o nível do devorador, sendo assim ele não ousaria se arriscar mesmo que quisesse muito. Ele se afastou do visor e saiu de lado em silêncio. Sua cabeça ainda estava numa completa confusão.

Rita fechou o visor e saiu de perto da porta. Todos estavam em silêncio esperando aquele momento passar.

― O que são esses devoradores? ― perguntou Rael olhando o homem.

― São comedores de pessoas, dizem que eles aumentam sua força comendo a gente. Você realmente nunca ouviu falar deles? ― perguntou o homem, com ar duvidoso.

― Eu com certeza me lembraria disso se já tivesse visto ou ouvido falar. ― disse Rael, que continuava apertando o cristal no peito. Eles não falavam muito alto, falavam em um tom baixinho.

― É impossível que não tenha ouvido nada a respeito, eles estão por toda parte. São criaturas monstruosas que atacam a noite ― repetiu o homem. Rael continuou confuso olhando de volta para o homem e Rita percebeu que poderia ser verdade, ele poderia mesmo não saber nada. Ele não tinha nem mesmo o cristal que ocultava o faro dos devoradores.

― A primeira aparição deles ocorreu há quinze anos atrás, no extremo Sul. Eles devastaram diversas cidades pequenas e vilas espalhadas. Eles também destruíram duas grandes potências na época, o Clã Elusio e e o Clã Solar. Mas antes do clã Solar perecer completamente, eles descobriram que os devoradores tinham repulsa do Cristal de Ureno. As pessoas só conseguem sobreviver se tiverem esses cristais ― Rita fez uma pausa em sua explicação e acrescentou em seguida, enquanto encarava o perdido Rael. ― Você realmente nunca ouviu falar disso?

― Com certeza não. ― disse Rael no mesmo instante.

― Você morava em quê? Nas cavernas? ― perguntou a mulher que estava com o homem. O tom dela era um pouco irritado, ela não acreditava em Rael. Pessoas que já conviviam dentro daquele inferno durante anos com certeza não iriam acreditar.

― Eu não sei como vim parar aqui, mas esse mundo com certeza não é o meu, algo de errado deve ter ocorrido quando toquei naquele selo. ― disse Rael, mais consigo mesmo do que com qualquer um ali presente.

― Que selo cara? ― perguntou o homem confuso. Tanto ele como a mulher estavam começando a pensar que Rael era louco, porque os dois não olhavam para ele com bons olhos. Rita ficou em silêncio.

Cerca de dez minutos depois a poeira transparente sumiu, e a estranha essência também. Não havia mais nenhuma daquelas coisas por perto. Eles ainda esperaram cinco minutos para ter certeza e só então Rita abriu a porta ainda mantendo o cristal no peito.

― Parece que não tem mais nada. O tempo normalizou, não há mais a aura deles nem qualquer sinal. ― disse Rita para todos, se virando de volta para dentro.

― Muito obrigado por nos ajudar! ― disse o homem e saiu levando a mulher passando por Rita que abriu espaço.

― Obrigada! ― disse a mulher enquanto passava e Rita fez um sim para os dois. Rael chegou perto da porta e olhou para onde deveria estar o homem atacado. Não havia mais nada, somente a poça de sangue vazia.

― E o homem que estava sendo atacado ali? ― perguntou Rael apontando a mão.

― Pessoas que são atacadas só tem dois destinos: Ou eles são completamente devorados ou são transformados em outro deles ― disse Rita. Rael, atordoado, voltou para dentro e se encostou novamente na parede. Rita não entendeu o porquê, Rael parecia não querer partir.

― O perigo já passou… Você poderia ir embora? Eu estou indo dormir. Sobre o cristal, você pode ficar com ele. ― disse Rita olhando Rael. Ela tentou parecer o mais casual possível.

― Eu posso ficar aqui hoje? Não sei que o está acontecendo, mas preciso de um lugar seguro para dormir. ― perguntou Rael, voltando a olhar Rita.

― Eu nem conheço você, porque te deixaria dormir na minha casa? ― perguntou ela de volta, ainda com a mão na porta aberta.

Rael percebeu que ela realmente não o conhecia, era como se esse mundo fosse agora uma outra realidade. Ele só pensou nessa possibilidade porque se lembrou das palavras de Rose, no dia que esteve com ela na caverna: “Um mundo alternativo é um sub-mundo do mundo real, no qual existem outras possibilidades de tempo, passado e futuro”. Se Rose estava certa, então esse era um sub-mundo, um mundo alternativo. A pergunta é: como que Rael foi parar ali? Isso não poderia ser apenas um sonho.

― Rita, eu sei que você não me conhece nesse mundo, mas eu conheci você quando ainda era mais nova. Não sei se você ainda tem aquela lança prateada com três lâminas vermelhas. Eu sei também que seu pai contratou uma especialista para você durante um ano. Você me contou que, quando tinha dez anos, caçava e praticava com essa especialista. ― disse Rael.

― Eu nunca falei com você antes, como sabe disso? ― perguntou Rita, que ficou impressionada com os acertos precisos de Rael. Rael percebeu que pelo menos essa parte da vida dela não tinha sido diferente e se aliviou.

― Acredite em mim. Eu jamais inventaria isso. ― disse Rael. Rita tinha um bom coração, e notou que a história de Rael poderia ser verdadeira. Ele talvez não tivesse nem para onde ir. deixá-lo sair a noite sem um lugar seguro era como entregá-lo para morrer. Ela jamais faria isso com uma pessoa se pudesse ajudar.

Rita fechou a porta e começou a fechar as travas, ela agora queria ouvir mais do que Rael poderia saber dela. Ela estava muito curiosa com ele.

― O que mais sabe sobre mim? E como sabe de tudo isso sem nunca ter falado comigo antes? Foram meus pais que contaram? ― perguntou ela em um estado de ansiedade e curiosidade.

― Não foram seus pais, foi você mesma em outro tempo. ― disse Rael com um ar pensativo.

― O que você quer dizer com isso? ― perguntou ela de volta.

― Sei que é difícil você acreditar em mim, mas acho que conheço você de outro mundo, igual a esse, mas diferente. Nós fomos irmãos, não irmãos de verdade, mas fomos. Eu morei nessa casa durante alguns dias. Tinha Adam, seu pai. Ele era comerciante e sempre montava a barraca do lado de fora da porta. Sua mãe adorava fazer bolos, principalmente bolos de milho, já comi bolo com ela várias vezes nessa mesma mesa. ― disse Rael, olhando a mesa da sala que era a mesma do outro mundo.

Tudo que Rael dizia sobre os pais de Rita era verdade, mesmo que fossem coisas óbvias. Mas a lança foi um acerto muito alto, isso porque Rita nunca a mostrou para ninguém além de sua mestra que teve por um ano.

Rita desabou na cadeira diante da mesa. Ela se lembrou de seus pais e ficou pensando em tudo que Rael havia dito. Nicolas, o filho, subiu no colo dela e começou a receber carinho da mãe que começou a passar as mãos no cabelo dele.

― Você acredita em mim? ― perguntou Rael, se sentando na cadeira em frente a Rita, pelo outro lado da mesa.

― Você não me parece um mentiroso, e tudo que disse até agora foi verdade. Tem mais a dizer? ― perguntou ela.

― Eu conheci sua cultivação, conheço sua liberação, o apoio, a amplificação. Você cultivava com o poder d’ O Tigre Dourado, não sei se mudou depois de um tempo… ― disse Rael, fazendo uma pausa e olhou para o filho dela. ― Mas no meu tempo você só tinha treze anos, eu nunca a vi mais velha que isso. Agora você é uma adulta e tem um filho. Você é casada? ― perguntou Rael.

― Eu me casei aos vinte quatro anos com homem chamado Tomas, da família Asura. Atualmente, tenho vinte nove anos e esse filho de quatro. Meu marido e meus pais morreram para os devoradores. ― explicou Rita, deixando Rael muito surpreso.

― Com o Tomas? Aquele cara idiota que quase não deixou você comprar a tiara? Em falar nisso, você ainda gosta de colecionar tiaras? ― perguntou Rael se lembrando.

― Eu não me lembro dele ser idiota, ele nunca me tratou mal. Era sim um pouco arrogante,mas não comigo. E sim, eu ainda coleciono tiaras ― disse Rita, sempre admirada com os muitos acertos de Rael.

― Isso tudo é inacreditável. Você com vinte nove anos e com filho. Ah! Que coisa doida. ― disse Rael e levou as duas mãos para a cabeça.

― E eu? Conversando com um cara estranho que sabe quase tudo do meu passado e eu não sei nada sobre ele, se ponha no meu lugar então. ― disse Rita de volta para Rael.

― Certo, eu não sou um cara estranho. Eu nunca fiz mal a você no meu mundo e jamais faria nesse, mesmo que você tenha me traído… ― disse Rael. Rita alongou um pouco os olhos.

― Trair você? Do que está falando? ― obviamente ela não entendeu o que Rael tentou dizer.

― Não é bem isso que eu quis dizer, eu só estou confuso. No outro mundo nós éramos bem próximos, como namorados, embora eu não pudesse te assumir por causa de alguns problemas familiares e outras coisas.― explicou Rael.

― E a parte dos irmãos, onde ficou? ― perguntou ela.

― É ai que tá, nos conhecemos e começamos a nos gostar por causa dessa parte. ― explicou Rael. Para Rita, Rael era só um estranho de boa aparência, mas as coisas que ele falava dela a deixaram curiosa, porque Rael conversava com ela sem a menor vergonha e a tratava mesmo como se já conhecesse. Essa era a parte que mais tocava Rita.

― Se tudo o que você diz é verdade, como chegou aqui?

― Eu não sei… Como eu disse, foi removendo um selo mortal de um lugar. Acho que fui tragado por uma armadilha e atirado nesse mundo. ― explicou Rael enquanto se lembrava do que tinha acontecido e da estranha teia de aranha que sentiu.

― Nesse outro mundo, não tem devoradores? ― perguntou Rita.

― Não. Eu nunca tinha ouvido falar deles até chegar aqui. ― explicou Rael.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes e Rael ficou curioso com outras situações. Nesse mundo como ele seria? Como seria o clã Torres?

― Rita me fale uma coisa: Como anda o clã Torres aqui? O patriarca Romeo ainda está no poder? Como está a filha deles, Natalia?

― Natalia morreu anos atrás, devorada por essas coisas…

― O quê? ― Rael perguntou de olhos arregalados e deu um tapa na mesa com as duas mãos se levantando, isso até assustou Nicolas, que ficou olhando Rael com um pouco de medo.

― Cuidado com o meu filho! ― reclamou Rita de volta e passou a mão nas costas da criança o acalmando.

― Desculpe. Você disse que ela morreu, Natalia não pode ter morrido. ― disse Rael e foi voltando para o seu lugar na cadeira.

― Eu não tive detalhes da morte dela. Romeo não está mais no poder. O novo patriarca é o filho dele, Rael, casado com sua prima, Mara.

― Rael e Mara estão casados nesse mundo? ― perguntou Rael de olhos arregalados. Como isso era possível? Ele ficou perplexo.

― Claro que estão. Eles são os maiores gênios da história. ― disse Rita surpresa com a cara que Rael fez.

― Eu não acredito que eles se casaram. Me diga, o filho do patriarca não era aleijado? Ele tinha os dois braços? ― perguntou Rael.

― Ele é um gênio e não tem nenhum problema corporal. Ele se casou há muitos anos atrás com Mara e tiveram até uma filha que atualmente tem dezesseis anos. Ela se chama Samantha, outra grande gênio. ― explicou Rita.

― Isso não pode ser verdade… ― disse Rael olhando em volta com uma cara perdida.

― No seu mundo as coisas são tão diferentes assim? ― perguntou Rita, que estava acreditando em Rael por mais louco que fosse.

― Você já viu esse Rael? Como ele é? ― perguntou Rael.

― Ele é um cara normal, boa presença, não tem nada demais além dele ser um gênio e ser um dos patriarcas mais novos da nossa história. ― disse Rita.

― Ele não se parece comigo? ― perguntou Rael.

― Definitivamente, não. Ele até tem uma altura semelhante a sua, mas os cabelos são loiros, curtos e ele não tem um físico tão forte quanto o seu ― disse Rita. ― Mas por que está tão interessado nele? ― perguntou ela de volta.

― Porque, no meu mundo, eu sou ele ― respondeu Rael, sem muita vontade. Rita abriu os olhos ainda mais, ficando impressionada.

 


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