O Herdeiro do Mundo

090 - Devorador

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Yan Fonseca

Conforme o tempo passou os dois continuaram voando naquela mesma velocidade.

Cerca de uma hora, como Violeta havia dito, ela finalmente começou a reduzir a velocidade. Tanto Rael quanto Violeta sentiram uma estranha presença não muito longe deles, mas Violeta já tinha sentido muito antes de Rael.

Reduzindo a velocidade, Rael reconheceu a ilha devido o alto vulcão no fundo, para onde eles estavam se dirigindo, agora já não havia mais nenhum Campo Absoluto ativado.

Violeta posou com Rael exatamente de frente onde deveria estar a barreira de raios na entrada da caverna escura. Agora não havia mais nenhuma barreira, não tinha nem mesmo os corpos que deveriam estar mortos pelo chão. O que tinha eram apenas restos e partes rasgadas de roupas.

― O que aconteceu aqui? ― perguntou Rael assim que se soltou de Violeta. Ele deu alguns passos a frente e entrou na caverna analisando o lugar com calma.

Rael ainda continuava sentindo uma estranha e intensa presença não muito longe deles. Mas para Violeta aquela presença era algo assustador e muito poderosa, porque ela podia sentir o nível correto do ser por trás dela. Estava acima do décimo reino.

― Rael. eu tenho que ir ver algo. Você me espera aqui. Não vá fazer nada até eu voltar, ok? ― perguntei Violeta.

― O que vai fazer? ― perguntou Rael olhando ela preocupado.

― Eu tenho que ir ver uma presença que estou sentindo, estou preocupada ― admitiu Violeta.

― Então tome cuidado ― disse Rael antes de Violeta levantar voo.

― Eu não demoro ― disse ela e levantou voo. Rael ficou vendo ela parti com velocidade para o seu objetivo ao norte. Depois ele se virou.

Rael se voltou para a caverna e lançou seus sentidos. Ele imediatamente sentiu uma estranha energia pesada pelo ar, coisa que ele não sentiu a primeira vez que esteve aqui.

Rael se aproximou da beirada onde deveria ter os corpos mortos e parou. Ele sabia que haveria selos mortais nas paredes do lugar pela outra parte da existência, provavelmente ocultando a outra violadora.

Rael se concentrou e ativou o Espaço Ilusório. No instante seguinte toda a caverna mudou para um perfeito corredor de paredes azuis, os degraus perfeitos de mármore cor vinho apareceram um pouco a frente de Rael. Em cada canto da parede antes de descer as escadas estavam os selos mortais. Cinco selos de cada lado. Como Rael não poderia ficar com aquela habilidade ativada por muito tempo ele não quis demorar.

― Será que agora eu consigo arrancar? ― se perguntou Rael e estendeu a mão, dessa vez ele tocou na folha. Rael então removeu facilmente o primeiro selo que se transformou em cinzas na mão dele e evaporou.

― Isso é maravilhoso, eu realmente entendi o real motivo dessa minha técnica ― disse Rael bem animado enquanto estendia a mão mais uma vez tentando remover outro selo do mesmo lado direito.

― Até Violeta voltar já vou ter terminado ― disse Rael tocando em um novo selo.

O Selo se ativou, brilhando numa intensa luz branca com várias escritas e uma simbologia estranha se formando no ar. Rael até soltou, mas não foi rápido o bastante.

― Merda! ― reclamou Rael sem ter tempo de fugir.

O selo se desfez no ar virando pó, mas antes jogou Rael para trás com uma pequena explosão de poder. Rael bateu as costas em um espaço branco que estava atrás dele como um tipo de redemoinho, como Rael não tinha se virado ele não tinha visto ele antes. Rael sentiu como se seu corpo tivesse batendo em uma grande e confortável teia de aranha gigante.

O corpo de Rael girou e girou várias vezes e no meio do processo ele acabou cancelando o Espaço Ilusório…


Violeta tinha acabado de chegar voando por cima de uma ilha vizinha aquela que tinha deixado Rael. Havia fumaça e fogo em muitas partes da floresta que cercava o local. Várias cabanas de madeira estavam destruídas, algumas por aparente brigas e outras pelas chamas que estavam devorando o lugar. Havia muitas marcas de sangue pelo chão por toda parte, rastros que viraram trilhas, havia também várias peças de roupas soltas pelo lugar.

Violeta foi caminhando lentamente na direção daquela estranha essência. Havia um jovem agachado segurando no colo o corpo de uma bela moça que estava agonizando de dor e quase com o olhar já perdido.

O jovem estava comendo a moça, mordendo e arrancando pedaços do ombro direito dela. Era possível já ver partes do osso e uma grande quantidade de sangue descendo.

Na parte que ele comia, ela não estava mais vestindo nada, estava nua da cintura para cima com perfeitos seios de fora, embora a cena claramente não era nem um pouco bonita.

― Me ajude ― disse ela assim que viu Violeta e levantou levemente o seu braço esquerdo livre em um pedido de socorro.

O direito já não se movia mais. Ela não tinha nenhuma força restando para enfrentar aquele rapaz que a devorava.

Isso atraiu a atenção do jovem devorador que se virou para Violeta com um olhar curioso. Ele tinha olhos vermelhos, mas em vez de ter pupilas ou íris normal, ele tinha o que parecia ser um cristal vermelho tomando todo o espaço dos dois, sendo a esclerótica branca a única parte normal do olho dele. Pelo rosto dele era possível ver pequenas veias de cristais vermelhas perto dos olhos e até algumas cercando a boca.

Violeta que viveu tanto, e já viu tanta coisa bizarra, nunca tinha visto coisa igual aquela. As mesmas veias vermelhas de cristais no rosto dele estavam também pelas mãos e pelos braços, era como se fosse um tipo de vírus contaminando partes do corpo dele.

― Encontrei algo realmente bom ― disse o rapaz loiro abrindo um sorriso com dentes avermelhados, sua boca estava suja com sangue e pedaços de pele. Ele largou o corpo da moça no chão e se virou para Violeta.

A estatura física dele era mediana, tanto na altura quanto no físico. Ele também usava roupas comuns de um adolescente. Calça bege, camiseta escura e um par de tênis brancos surrados.

― O que você fez aqui? ― perguntou Violeta.

― Devorei, você não percebeu? Foi muita sorte ter encontrado esse lugar. As pessoas aqui não sabem se virar ― disse ele abrindo um sorriso frio. ― Agora fique quietinha e me deixe devorar você também ― disse ele irradiando uma aura vermelha nos olhos como a de uma besta.

Ele estava a menos de quinze metros de Violeta. Ele forçou os pés para trás e saltou enquanto arreganhava os dentes afiados como os de um animal. Ele voou diretamente em direção ao pescoço de Violeta já girando o pescoço no ar para encaixar os dentes.

Vruuum!

Violeta arregalou os olhos surpresa com a velocidade dele e moveu a cabeça de lado escapando da bocada bem a tempo.

Cleeeeeek!

Os dentes dele se fecharam com força mordendo o ar. Violeta levantou o braço esquerdo e com o punho fechado acertou o rosto dele no processo de lado.

Boooom!

O jovem loiro saiu voando de lado, e no processo acertou uma cabana indo parar do outro lado das duas paredes de madeira deixando um rombo em ambas. Ele caiu todo torto no chão e com o pescoço dobrado. O golpe dado por Violeta foi para matá-lo.

Violeta já reapareceu próxima a ele, e se surpreendeu, porque o mesmo conseguiu se levantar mesmo tateando meio tonto com o pescoço ainda quebrado, tanto que a cabeça dele ficou tombada para baixo.

A cabeça dele foi voltando ao normal enquanto as partes rasgadas do pescoço se recuperavam, nesses locais machucados do pescoço foi nascendo veias vermelhas que iam cobrindo uma parte das feridas.

Quando ele normalizou o pescoço as veias vermelhas ficaram expostas por cima da pele. Podia-se notar sangue correndo por dentro dessas veias. Aquilo era muito estranho.

― Você não é fraca como o resto desses cultivadores que eu matei. Quando eu comer sua carne com certeza vou renascer como um deus ― disse ele pronto para partir novamente para cima de Violeta.

Violeta estava surpresa, mas não com medo. Ela nunca tinha visto aquele tipo de poder antes.

― O que é você? ― perguntou Violeta estendendo a mão direita e apontando o dedo indicador para o jovem.

Quando o rapaz já estava pensando em saltar nela novamente. O dedo de Violeta brilhou e uma rajada vermelha como um laser bem fino saiu atingindo o peito esquerdo dele no exato lugar do coração.

Zuuuup!

― Maldita! ― rugiu o rapaz caindo no chão com o peito arrombado.

O tiro de Violeta ainda atravessou várias rochas e correu por cerca de dois quilômetros até se desfazer no ar.

― Responda o que é você? O que são essas veias vermelhas? ― perguntou Violeta ainda com o dedo apontado para o rapaz.

O peito dele já estava trabalhando em processo acelerado para se fechar. Violeta percebeu que ele era um verdadeiro monstro, seu corpo era muito estranho por se recuperar tão rápido. Outro cristal vermelho nasceu cobrindo o local que Violeta tinha acabado de feri-lo.

― Algumas pessoas nos chamam de Devoradores, mas somos outra coisa ― disse ele ficando novamente de pé. Seu peito já tinha se fechado completamente. ― Você viu que não pode me matar, agora seja uma boa menina e deixe-me comê-la ― disse ele novamente mostrando os dentes nojentos.

― De onde você veio? ― perguntou Violeta ainda com o dedo apontado.

― O que isso importa? Apenas seja boazinha e se torne minha comida ― disse ele e deu um passo na direção de Violeta se preparando para outro bote.

― Você se recupera rápido, mas isso não quer dizer que eu não possa matá-lo ― disse Violeta.

― Seja minha agora! ― rugiu o rapaz sem esperar mais e saltou outra vez em cima dela.

Violeta girou de lado saindo da zona de alvo e levantou o pé direito. Sorte que hoje ela estava com uma calça folgada.

Boooom!

O chute acertou o peito do rapaz, o atirando dezenas de metros para cima. Enquanto subia no ar, ele cuspiu uma grande quantidade de sangue e teve alguns ossos quebrados. Ele chegou até o limite do impulso e começou a cair quando viu a palma da mão direita de Violeta estendida no ar mirando contra ele. Ele ainda chegou a ver um brilho vermelho se formando e arregalou os olhos.

― Se recupere disso que eu quero ver. Rajada de Energia! ― disse Violeta e atirou uma poderosa e grossa carga de laser, semelhante a primeira, mas muito maior.

Zuuuuuuumf!

O rapaz nem teve tempo de gritar. Ele teve o corpo inteiro engolido dentro daquela forte luz vermelha. Seu corpo se desintegrou no ar, partícula por partícula sumindo completamente. Até mesmo os cristais viraram pó no processo.

Quando Violeta baixou a mão, a rajada ainda seguia sumindo nas nuvens de tão forte que foi. Violeta ficou satisfeita porque não sentiu mais a essência do poder do rapaz. Ele tinha sido completamente eliminado.

Violeta foi até a jovem que estava a beira da morte caída no chão. Ela se tremia enquanto seus olhos começavam a mudar, estavam começando a ficar vermelhos. Violeta já podia sentir a mesma aura intensa do rapaz começando se formar na moça.

― Me ajude, por favor ― ela estendeu o braço esquerdo de novo para Violeta.

― O que você está sentindo? ― perguntou Violeta chegando mais perto.

Os olhos da moça estavam sendo tomados por pequenos arranhões vermelhos que iam se espalhando. Um pouco de sangue descia sutilmente na beiradas dos olhos dela.

― Eu sinto muita dor de cabeça e meu corpo está frio, está dormente ― disse ela com um pouco de dificuldade enquanto gemia.

― É um tipo de vírus poderoso. Em poucos minutos tomará a mente dela e a transformará naquela coisa. Nunca vi nada assim antes ― pensou Violeta, e estendeu a mão direita carregando energia.

― Feche os olhos e a dor vai passar ― disse Violeta.

A moça obedeceu apertando os olhos com força. Lágrimas de sangue desciam pelo rosto dela.

Zuuuup!

Violeta atirou uma rajada pequena, o suficiente para fazer um rombo na cabeça dela e matar no mesmo instante, ela nem sentiu dor.

Violeta ainda ficou parada analisando o comportamento do corpo dela por alguns instantes e percebeu que o vírus tinha morrido com ela. Toda aquela formação de energia se transformando a pouco parou.

Violeta se concentrou e seus olhos ficaram completamente escuros, eles criaram raízes negras que se espalharam pelo rosto. Então ela lançou o seu intenso sentido ampliado em várias vezes, ativando sua essência demoníaca.

A mente de Violeta varreu todas as regiões próximas em um raio de cem quilômetros. Ela buscou a essência desse poder e não encontrou mais nada. Aparentemente o rapaz deveria ter sido o último.

Só depois disso Violeta foi pensar em Rael e percebeu que ele não estava mais aqui…


Vuuuuap!

Houve uma explosão no ar acima das nuvens e Rael apareceu dela. Quando Rael foi perceber ele estava caindo rasgando o ar, no impulso e no susto ele ainda tentou segurar o nada até se acalmar e perceber melhor sua atual situação. Ele passou por entre nuvens escuras fechando os olhos momentaneamente e continuou caindo com velocidade.

Estava noite e ele via uma cidade embaixo por causa das luzes das estruturas pequenas espalhadas. Parecia uma cidade de porte médio.

Rael começou a concentrar a energia do ar enquanto caia e fechou os olhos. O vento o cercou e seu corpo aos poucos foi tendo o peso diminuído até o ponto onde ele começou a flutuar. Rael abriu os olhos e se aproximou descendo na rua, ele pousou e já olhou em volta curioso.

Vários guardiões imperiais Grifem cercaram Rael, eles seguravam nas mãos suas armas e um cristal azul, o mesmo que era capaz de criar uma barreira protetora. Alguns outros guardiões seguravam também trombeta escuras e estavam prestes a soprar.

Rael pensou que eles iriam iniciar uma série de perguntas, mas isso não aconteceu, eles apenas chegaram bem perto de Rael e o olharam ansiosos, depois baixaram suas cabeças aliviados.

― Garoto você nos deu um belo susto ― disse um dos guardiões.

― Nós pensamos que você era um deles ― disse o outro guardião. Rael ficou em silêncio confuso e eles começaram a se afastar.

Rael correu os olhos com calma na rua e descobriu que já esteve aqui antes. Essa era a cidade Elunia, a cidade onde a falsa família de Rael morava. Mas estranhamente ela parecia um pouco diferente.

Rael não demorou para se achar, ele já tinha andado muitas vezes por aquela cidade, então ele facilmente seguiu caminho para a casa de sua falsa família, ele queria muito ver sua Rita. É claro, ele ainda estava confuso de como veio parar ali, mas como por enquanto ele não poderia falar com Violeta então, ele não ia poder fazer nada a não ser esperar. Ele acreditava que Violeta iria encontrá-lo cedo ou tarde.

Rael não tinha pousado longe, por isso em poucos minutos ele chegou em frente a casa de Adam. Não só as ruas estavam um pouco diferentes como também a porta que parecia muito maior e mais grossa. Ele não quis saber, já chegou batendo e chamou.

― Rita! Sou eu, Samuel, abra aqui!

Vraaaaam

Uma tábua correu na porta liberando uma linha de visão na altura do peito de Rael. Rael viu um par de olhos castanhos o encararem de dentro, eram os olhos de sua Rita. O que Rael estranhou foi esse mecanismo novo na porta.

― Rita? ― perguntou Rael baixando o rosto tentando ver melhor.

Vraaan!

A tábua foi puxada fechando aquele espaço aberto e fazendo Rael recuar o rosto, em seguida ele escutou os trincos da porta sendo liberados. A porta se abriu e uma mulher adulta de pele branca surgiu. Ela era apenas um pouco mais baixa que Rael, tinha longos cabelos ondulados claros, olhos castanhos, era magra e tinha peitos de tamanho comum por baixo de uma blusa verde de veludo. Ela era idêntica a Rita, só que estando numa versão de vinte anos. Adulta.

― Quem é você? ― perguntou ela olhando Rael com uma expressão confusa.

― Rita, é você? ― perguntou Rael também em um tom confuso.

― Como você me conhece? ― perguntou ela de volta ainda naquele ar curioso.

Rael viu ao lado dela surgir um tímido garoto loiro de uns cinco anos, os cabelos dele eram bem soltinhos e lisinhos espalhados na cabeça, pareciam cabelo de tigela. Ele já chegou agarrando a perna direita de Rita com os dois braços.

― O que aconteceu? Onde está Adam e Barbara? ― perguntou Rael todo confuso.

― Meus pais? Eles morreram cinco anos atrás ― disse ela achando Rael cada vez mais estranho.

O que não a fazia correr e deixá-lo ali sozinho, era o fato de que ele parecia conhecê-la, isso sem mencionar que agora ele tinha tocado no nome dos pais dela.

― Não, isso não tá certo ― disse Rael olhando em volta como se ele de repente não estivesse no lugar correto.

― O que não está certo? ― perguntou Rita que continuava olhando Rael com o mesmo ar confusa. O garotinho embaixo olhava Rael bem curioso também.

― Como eles morreram a cinco anos atrás se esses dias mesmo eu os vi? E como você cresceu tanto assim Rita? Aliás, quem é esse garoto? ― perguntou Rael por fim.

― Este é Nicolas, meu filho ― disse ela.

― Seu filho? ― Rael ficou muito chocado. O que diabos estava acontecendo? Ele realmente não entendia.

 

(NR: Certeza que é viagem no tempo…)

 


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