O Herdeiro do Mundo

064 - Casamento de Rael e Mara

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Sneed

Rael não conseguiu retirar a cena de sua cabeça. Sua irmã sendo abusada por Heitor, olho roxo, nariz ensanguentado e virilha suja de sangue. Aquilo era como um terror que corria na mente de Rael o lembrando de que ele era fraco e não tinha força suficiente para enfrentar seus inimigos.

Rael não se lembra de quando dormiu porque naquela noite ele rodou na cama varias e varias vezes.

Em algum momento ele viu Isabela em uma alucinação e ela parecia estar morrendo em seus braços. O rosto de Isabela mudava e se transformava no da irmã Natalia. Rael se via com as mãos cobertas de sangue.

Então Rael acordou respirando acelerado e quando olhou em volta ficou ainda mais confuso. Ele estava mais uma vez na biblioteca, a mesma do ultimo sonho. Rael se levantou da cama e caminhou com mais calma por entre as prateleiras.

 Mas que lugar é esse? ― Rael continuava se perguntando enquanto caminhava. Seu pescoço girava de um lado a outro enquanto averiguava o cenário. Corredores sem fins, prateleiras que pareciam não acabar e livro, muitos livros. Tinha corredores que chegavam a ter prateleiras por cima de prateleiras, tendo até mesmo escadas para alcançar locais mais altos.

Rael sentiu outra presença e se lembrou de Violeta, ela sempre esteve aqui com ele. Ele se perguntou por que sempre se esquecia desse lugar.

Rael entendeu que esse lugar era como um mar infinito de conhecimento e era daqui que ele tirava tantas informações que sabia lá fora, aquelas que ele não se lembrava de como conseguiu. Ele teve alguns flashes estranhos de memórias, pequenos fragmentos dele mesmo lendo alguns livros, Violeta constantemente falava com ele e ele se lembrou que não dava atenção a ela, ele estava em um tipo de hipnose onde só importava o que ele pensava.


Rael se acordou no outro dia sentindo que esqueceu algo mais uma vez, ele continuava se lembrando da biblioteca do momento em que esteve lúcido, depois tudo era uma escuridão bagunçada na mente dele.

Na cozinha durante o café que foi acompanhado apenas por Neide. Rael perguntou novamente de Mara.

― Ela voltara hoje a noite ou amanhã talvez, seja um pouco paciente, você não passa mal se deixar de fazer sexo por pelo um dia ― disse Neide com um meio sorriso. Rael nem ligou, ele apenas virou sua xícara de chá, depois saiu caminhando comendo um pedaço de bolo de milho que ia se esfarelando no caminho.

Rael saiu do território do clã e entrou na capital. Depois do sonho estranho que ele teve, ele sentiu que precisava ver Isabela.

Minutos depois Rael chegou em frente a hospedagem que ele já conhecia. Isabela e o grupo dela estavam acabando de sair. Isabela estava até mesmo vestida com a sua armadura de ouro.

― Samuel? ― perguntou Bryan animado, ele foi o primeiro a ver Rael, todas as outras se viraram depois.

― Ola Bryan, ola meninas ― disse Rael e sem mais enrolar já foi direto em Isabela. Isabela já entrou em estado de alerta, pensando em recuar ou tomar alguma ação contra o ousado Rael.

― Que bom que você está bem ― disse Rael abraçando Isabela na frente de todos. Isabela não conseguiu mover um dedo mesmo pensando em mil maneiras de fugir de Rael. Quando ele a abraçou ela perdeu completamente a vontade de lutar. Ela se sentia tão bem nos braços de Rael e tão cheia de felicidades, como poderia lutar contra algo como aquilo?

― Samuel me solta, estamos partindo para uma missão, eu não tenho tempo pra isso agora ― reclamava Isabela tentando empurrar Rael, mas não parecia está tentando fazer aquilo de verdade. Todos sabiam que Isabela podia se soltar de Rael bem facilmente, ele nem estava segurando ela com força, então porque ela estava agindo daquele jeito?

― Você não vai pra nenhuma missão agora, vai passar um tempo comigo ― disse Rael. Isabela na mesma hora parou de lutar e se acalmou ficando serena.

― Está bem ― concordou Isabela deixando todos chocados. O clima ficou tão estranho que para contornar a situação Bryan teve que ajudar.

― Meninas! Vamos da um tempo para os dois? Que tal irmos até a guilda conferir as missões, quando nossa líder terminar ela pode ir nos procurar ― disse Bryan e já puxou a mão de Sofia fazendo ela o seguir.

― Boa ideia ― concordou Luana sorrindo, e seguiu atrás dos dois. Os três logo estavam partindo. Rael ainda não tinha soltado Isabela, quando ele pensava nela se lembrava também da irmã e isso trazia uma sensação de medo.

― Samuel vamos entrar, vai ficar estranho você ficar agarrado aqui comigo no meio da rua ― disse Isabela. Rael finalmente a soltou. Depois os dois entraram na pousada.


Já no quarto, Isabela fechou a porta e abriu a janela ao fundo que tinha fechado antes de sair para entrar luz no cômodo. Rael sentou-se na primeira cama e ficou olhando as costas de Isabela.

― Será que nós não nos conhecemos antes? Quando estou com você sempre me sinto muito bem, eu sinto que posso confiar em você ou algo assim ― disse Rael. Isabela virou-se para ele e teve o mesmo pensamento. Mesmo que ela não conseguisse desobedecer um pedido de Rael, ela tinha a sensação que aquilo era o desejo do fundo do seu coração e por isso ela nunca podia evitar nem lutar contra.

― Vai saber ― disse Isabela e sentou-se ao lado de Rael. Os dois ficaram alguns segundos em silencio apenas olhando os próprios pés.

― Você quer me contar alguma coisa? ― perguntou Isabela olhando de lado. Ela estava sendo bem cuidadosa com Rael porque estava preocupada com ele. Ela sentia seu interior quente, como se tivesse com medo de algo.

― Eu sou fraco, eu sou muito fraco Isabela ― disse Rael se lembrando de sua irmã. ― Eu não consegui proteger a única pessoa que me apoiou no passado. A única. Tem ideia do quanto isso é difícil? ― perguntou Rael sem olhar para ela.

― Você não é fraco. Você pode ser um cafajeste, um tarado sem vergonha, mas fraco você não é. Mesmo na minha pior situação você me salvou contra cultivadores que nem se quer tinha chance. Você derrotou um homem no quinto reino com um golpe estando no terceiro reino e eu vi tudo isso.

― Não estava no terceiro reino ― disse Rael.― Eu estava no quarto, eu posso ocultar meu poder inteiro em um reino ― explicou Rael. Isabela ficou um pouco surpresa e continuou.

― De qualquer forma, foi um milagre a sua vitoria.

― Eu não quero que você faça nada perigoso ― disse Rael olhando Isabela de lado. ― Eu tive um sonho em que você estava morrendo ou morta não sei, por isso quando cheguei fiquei aliviado de ver você bem ― Quando Rael dirigia a palavra para ela, era como se tivesse falando com uma pessoa valiosa de sua vida, não uma mulher que conhecia a poucos dias. Isabela podia sentir as palavras de Rael e a maneira como ele a tratava. Ela se sentia bem com isso.

― Eu sou mais durona do que parece ― disse Isabela e se sentiu feliz por saber que Rael se preocupava tanto com ela.

― Mas tome cuidado, as mesmas pessoas que estavam atrás de vocês naquele dia, podem tentar de novo a qualquer momento ― disse Rael e se levantou. Isabela se levantou junto.

― Você tem algo pra fazer e já tomei muito seu tempo então vou indo ― disse Rael e antes de sair ele deu outro abraço forte em Isabela. Os dois ficaram em silencio guardando aquele momento para eles. Depois ele se virou e saiu. Isabela ficou olhando Rael indo embora com um estranho sentimento de preocupação. Ela apenas ficou em silencio porque cada vez mais, ela se entendia menos.

Depois de ver Isabela bem Rael estava muito mais aliviado, contudo, sua irmã continuava sofrendo em sua mente.

Depois do almoço Rael passou a tarde inteira cultivando até de madrugada. Enquanto cultivava ele ficou em parte concentrado com a energia de Natalia, isso o deixava mais tranquilo. Graças as casas serem tão próximas ele conseguia manter o foco concentrando em Natalia e a mesma parecia quase não se mover do lugar, Rael sentiu ela sair apenas duas vezes do lugar mas voltou rapidamente, era como se ela estivesse presa em seu próprio quarto.


Dois dias se passaram e Rael conseguiu avançar para o nível dez, ficando agora um passo para o quinto reino. Ele continuava cultivando em uma fúria insana, mas pretendia sair em breve para caçar bestas e ver se seu nível voltaria a aumentar matando. Ele queria chegar ao quinto reino antes do torneio.

Mara e Rayger chegaram naquela tarde e imediatamente Rael ficou surpreso. Ela estava no sexto reino nível sete. (Sexto reino) O Domínio da Mente. Como alguém passava de nível tão rápido? Rael não conseguiu deixar de se perguntar, aquilo não era normal.

Mara chegou animada abraçando e beijando Rael. Rayger saiu para resolver alguma coisa e os dois ficaram sozinhos. Rael esperou eles irem para o quarto para iniciar as perguntas.

― Mara você está no sexto reino, como pode passar de nível tão rápido? ― perguntou Rael curioso. Mara arregalou os olhos surpresa. Isso porque dentro das regras Rael não poderia saber o nível dela devido a diferença de poder e segundo, ela estava usando um anel de bloqueio que fazia ela parecer está no mesmo poder de antes.

― Como você soube disso Samuel? ― perguntou Mara chocada.

― Como? Olhando é claro ― disse Rael. Mara só acreditou nele porque somente ela e o pai tinham aquela informação. Eles mal tinham pisado em casa e Rael já havia percebido, nem sua mãe mencionou qualquer coisa.

― Que tipo de treinamento você teve Samuel? ― perguntou Mara que não conseguia achar uma explicação normal para Rael saber daquilo.


Os dias se passaram e chegou o tão esperado casamento de Rael e Mara. O território do clã Torres foi enfeitado com linhas de balões entre varia casas. Visitantes vinham de vários lugares. Até mesmo as outras quatro potencias estavam com seus representantes participando da cerimônia.

Havia gente importante de todas as partes que se pudesse imaginar. Homens de aparências refinadas e atraentes, tal como mulheres deslumbrantes. A maior parte de grandes famílias. Mesmo que Rayger não fosse mais o preferido para a vitoria as pessoas não o menosprezavam, porque o poder e a influencia dele não eram pouca coisa, então fazer uma média com tal homem ainda era de muito interesse para qualquer um presente.

Mara estava linda em um grande vestido branco com cristais azuis, usava na cabeça uma bela tiara de diamantes brancos. Rael usava um elegante terno e calça azul, com uma camisa branca de botões por dentro, usando nos pés um par de sapatos pretos, roupas passadas por Neide.

Mara apresentou sabe-se lá quantos conhecidos de outros clãs que ela conseguiu fazer em suas viagens pelo mundo para Rael. Rael ficava sempre com aquele sorriso tosco de quem não estava gostando nem tão pouco achando ruim.

A pior parte no entanto do casamento, foi ver os próprios pais presentes. Romeu e Elisa de um lado, Natalia e Heitor do outro. Natalia estava de mãos dadas com seu futuro noivo. Qualquer um podia notar o semblante triste da garota. Era como alguém que estava mergulhado em um pesadelo sem fim. Mesmo que ela estivesse deslumbrante, em um lindo vestido prateado com um chique colar de ouro, seus olhos entregavam a tristeza que afligia seu coração. Ela estava afinal, de mãos dadas com o monstro de seus pesadelos, e tudo porque seus pais a obrigaram a fazer aquilo.

Obviamente, Mara e Rael foram receber os convidados. Mara que era puro sorrisos, quando viu a prima reduziu drasticamente sua cortesia, ficando com um ar mais pesado, enquanto Rael do lado ficava em um estado um pouco pior depois de ver seus pais e Heitor.

Os pais de Natalia foram rápidos. Mara mal os cumprimentou e eles já saíram para conversar com pessoas mais importantes para eles. Romeo não se importou de dizer nem se quer um parabéns, ele apenas respondeu a sobrinha com um obrigado pelo bem vindo e sumiu arrastando a esposa. Deixando para trás o casal. Elisa tinha ficado um bom tempo de expressão fria encarando Rael, como se quisesse buscar algum vestígio de que ele tinha aberto a boca pra alguém.

A seguir Mara e Rael se dirigiam para os outros dois.

― Sejam bem vindos, espero que aproveitem a noite ― disse Mara ainda forçando um sorriso. Natalia quase nem olhou nos olhos da prima, ela apenas levantou o rosto e encarou Rael por alguns segundos. Rael se tremeu para não empurrar, socar Heitor e tomar Natalia dele a força.

― Agradecemos a cortesia e estamos felizes por ter o privilegio de participar do casamento de vocês ― Heitor levantou uma taça de vinho que tinha na mão livre e prosseguiu. ― Que vocês sejam muitos felizes juntos. ― disse ele com um sorriso sínico. Até mesmo Mara percebia o falso tratamento. Mas ela como Rael só poderia ignorar.

Rael apertou a mão de Mara algumas vezes tentando passar uma mensagem a ela. Ele queria que Mara fizesse um convite para a própria prima, algo para tira-la das mãos do monstro nem que fosse por algum tempo.

Mara sentiu que Rael estava tentando passar alguma mensagem, mas logicamente ela não fazia nem Idea do que seria. Rael então teve que aproximar o rosto do ouvido dela e dizer baixinho.

― Você é prima dela, então a convide para alguma coisa ― disse ele. Mara ouviu aquilo e ficou sem jeito. Porque ela já tinha se afastado da prima e mal estavam se falando. A prima dela não era interessante e as duas tinham se afastado devido o torneio que estava chegando, coisa da família. Mas como era um pedido de Rael, ela não poderia ignorar.

― Prima vamos dar um passeio? Faz tempo que a gente não se fala ― disse Mara estendendo a mão com um sorriso sem jeito. Natalia teve que olhar mais de uma vez para ter certeza que sua prima estava mesmo a convidando de verdade. Mara nunca mais tinha falado com ela e de repente estava falando? Natalia ficou bem confusa.

Por um instante os olhos de Natalia brilharam em alegria e ela soltou a mão de Heitor segurando a mão de Mara. Mara na mesma hora guiou a prima para longe dos dois e subiram uma escada ao fundo de mãos dadas.

― Acha mesmo que isso vai tirar essa garota de mim? ― perguntou Heitor com um sorriso, ele não era burro, tinha entendido tudo que havia ocorrido.

― Se você ousar machucar essa garota mais uma vez eu juro, que vou matá-lo como um porco ― disse Rael friamente.

― Eu já percebi que você gostou da minha noiva, ela é muito mais bonita que a sua afinal. É uma pena, mas no fim ela será minha e tudo que você poderá fazer é olhar e morrer de inveja ― disse Heitor de volta.

― Cale a boca seu merda ― disse Rael de volta. Os dois mantinham um tom baixo, a vista dos outros eles pareciam estarem tendo uma conversa civilizada, pelo menos por parte de Heitor que frequentemente sorria, Rael por outro lado parecia um pouco descontente, mas nada que pudesse atrair a atenção alheia.

― Isso é jeito de tratar um convidado? Nós estaremos na família juntos em breve, afinal meu casamento será um dia depois do torneio. Em breve eu poderei me deliciar com aquele corpinho quente daquela menina ― disse Heitor.

Rael reuniu todas as forças que tinha para não fazer nada, mas seu punho direito se fechou e se apertava.

― Eu vou matá-lo antes disso ― disse Rael silenciosamente.

― Vai mesmo é? Bem vou espera pra ver. Como presente de casamento vou te dar um aviso. É melhor você e sua esposa não participem do torneio, porque eu não pegarei leve com nenhum de vocês ― disse Heitor com um sorriso frio e saiu caminhando deixando Rael sozinho.


Mara tinha levado Natalia para a varanda de um dos quartos acima. As duas ficaram em silencio olhando a rua.

― Achei que não quisesse mais falar comigo ― disse Natalia baixinho.

― Meu noivo me pediu, então estou meramente cumprindo a vontade dele. Fico me perguntando o que aconteceu nesses dias enquanto estive fora ― disse Mara, mas aquilo não soava como uma pergunta.

― Então foi ele que pediu ― disse Natalia ficando um pouco desanimada.

― Que cara é essa garota? Se anima, você ta parecendo um defunto no meu casamento. Se não está gostando fala logo. ― perguntou Mara impaciente. Ela não tinha mais tanta amizade com Natalia, mas isso não queria dizer que a odiava.

― Prima desculpe ― disse Natalia e avançou sobre a prima a abraçando de surpresa. ― Eu não sei se fiz algo de errado, não sei se te ofendi, não sei o que aconteceu entre nós mas me perdoa, por favor me perdoa ― repetia ela com o rosto no peito de Mara. Natalia não estava mais se segurando e chorava sem se importar. Comparado com o monstro que estava com ela agora e sua prima, ela preferia um milhão de vezes está com a prima.

Mara por um segundo quase repeliu Natalia de cima dela, mas quando percebeu a garota chorando abertamente ela vacilou, se lembrou também de Rael reclamando sobre como ela matou o escravo e todas as coisas que ele vivia reclamando dela. Então mesmo se esforçando um pouco ela cruzou os braços nas costas de Natalia a confortando silenciosamente.

Rael estava no canto da porta ocultando sua presença e viu a cena, ele não viu tudo, mas viu o final e ficou satisfeito. Ele prometeu a si mesmo, que salvaria Natalia não importa o que tivesse de ser feito.

― Prima eu sinto muito, eu não consigo parar de chorar ― Natalia continuava dizendo. Ela era como uma garotinha indefesa. Mesmo Mara sendo dura como uma rocha, não conseguia afastar ou dizer qualquer coisa agora de Natalia. Então tudo que ela fazia era continua apertando aquela frágil garota contra seu peito, ação que estava sendo assistida por Rael.




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