O Herdeiro do Mundo

030 - Apresentações Familiares

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Yan Fonseca

Rael, Rose e Mara entraram na carruagem a frente. Rael ficou sentado no meio das duas. Mas é claro, Mara se escorou de costas por cima de Rael propositalmente enquanto a carruagem avançava, os levando. Atrás deles a outra carruagem os seguia levando os protetores de Mara.

― Espero que essa seja a última surpresa que você me faz. Estou aceitando essa garota em respeito a sua mestra e também como uma forma de me desculpar pelo modo que tratei Rita antes ― disse Mara.

― Você está aceitando porque eu mandei, terá que aprender a me ouvir se quiser minha lealdade e se quiser ser minha futura esposa ― disse Rael e beijou o pescoço de Mara apenas para provocá-la.

― Isso é você se esforçando para me agradar? ― perguntou Mara sorrindo virando o rosto para Rael.

Quem visse aquela cena poderia dizer que aquele casal se dava muito bem.

― Não, isso é apenas eu tentando deixar você mais obediente ― disse Rael com um meio sorriso. Mara riu.

― Hahahaha! Se esse é caso, você precisará se esforçar muito mais ― disse Mara rindo e virou-se de volta para frente.

― Você não vai me falar nada sobre esse evento? Seu pai vai estar mesmo lá? ― perguntou Rael curioso.

― Não só meu pai, alguns irmãos também vão estar presentes ― disse Mara.

― Espere, se você tem irmãos porque seu pai está usando você para tentar tomar a liderança da família? Não seria mais fácil usar os outros? ― perguntou Rael curioso.

― Por causa da idade, eles não podem mais representar a família porque já são um pouco velhos. O limite é trinta e cinco ― disse Mara.

― Idade é? Como você faz pra aumentar sua força tão rápido? ― perguntou Rael curioso.

― Isso é segredo ― disse ela. ― Por acaso você não tem ciúmes de mim Rose? ― perguntou Mara se virando para a garota que estava no canto do outro lado de Rael.

Rose sempre tinha mantido aquela expressão séria no rosto desde que partiram, sem mudar nem mesmo quando Mara se jogou em Rael.

― Ela não está acostumada em falar, passou vários anos longe das pessoas apenas cultivando ― explicou Rael, dando a mesma desculpa que tinha funcionado antes com os outros.

Mara ficou olhando Rose com um pouco mais de curiosidade, naquele momento ela percebeu que Rose certamente não iria interferir na vida dela e aquilo a deixou de certo modo mais tranquila.

― Nunca tinha ouvido falar de nada assim ― disse Mara se voltando para o outro lado e deixando Rose em paz.

Rose realmente ainda não entendia todos os sentimentos e obviamente não tinha ciúmes.

― Rael, o que é ciúme? ― perguntou Rose.

― Ciúme é quando alguém que você está interessada interage com outras pessoas ou algo assim ― disse Rael, que tinha aprendido isso a pouco tempo em uma conversa com Rita.

Rose apenas ficou pensativa sem compreender bem aquelas palavras. No mundo antigo dela, os machos eram escassos, por isso era comum o mesmo macho ter filhotes com várias fêmeas. Por isso ela não ligava quando Rael ficava com Rita ou mesmo com Mara.

A viagem seguiu sem problemas e algumas horas depois eles chegaram a cidade de Améria. Para Rael era somente uma cidade a mais, como Elunia, não havia nada de espetacular nas casas, nas ruas ou nas pessoas que passavam seguindo suas vidas.

As duas carruagens pararam em frente a uma mansão e todos desceram. Um homem alto muito bem vestido usando um conjunto de roupas elegantes mesclando azul com escuro surgiu saindo da mansão.

Ele usava no braço uma faixa escura com o símbolo do clã Torres, tinha também o nome conselheiro acima do símbolo. Aquelas faixas eram usadas somente pelas pessoas mais próximas do patriarca.

Rael reconheceu na mesma hora o homem que se aproximava. Rayger, o pai de Mara. Rael não viu seus pais muitas vezes, mas não era difícil encontrar esse homem junto a seu pai.

Diferente do resto da família e até mesmo Mara. Rayger nunca tratou Rael como um lixo, ele sequer chegou a colocar Rael em seus olhos, por isso Rael não tinha tanta raiva dele.

Rayger não se aproximou sozinho, atrás dele seguia outros dois homens, eram seus filhos. Rael se lembrou na mesma hora de Robert e Alves, esses dois até chegavam a bater em Rael as vezes. Rael perdeu a conta de quantas vezes foi atirado de cara no chão por aqueles dois, que depois ainda perguntavam cinicamente se Rael estava bem.

Tirando Rayger, Rael tinha raiva de todos os três filhos, mas comparado com Mara que apenas tirava Natalia de perto dele, aqueles dois eram muito piores, porque eles agrediram Rael e o humilhara.

― Samuel, este é meu pai Rayger Raleon e esses são meus irmãos, Robert e Alves ― apresentou Mara.

― É um prazer conhecê-los seniores ― disse Rael contendo toda sua raiva enquanto agachava levemente a cabeça.

Naquele instante o olhar dos dois irmãos mais velho de Mara caíram sobre Rose que estava do lado de Rael.

― E esta é Rose, ela é noiva de Samuel devido uma promessa de sua mestra ― disse Mara em seguida.

― Noiva? Irmã, você aceitou isso? Justo você que dizia que jamais iria dividir um homem com ninguém? ― perguntou Robert.

Robert, entre os irmãos de Mara, era o mais cheio, um pouco gordo na verdade. Ele era moreno como os outros irmãos e todos eles tinham o mesmo cabelo escuro, o que mudava era a altura, os olhos etc..

― Como foi decidido pela mestra dele eu não pude recusar ― disse Mara que não esquentou com a provocação de seu irmão mais velho.

― É a primeira vez que vejo uma garota de cabelos azuis ― disse Alves do lado.

Ele parecia ser um homem muito mais sério do que Robert, mas Rael conhecia aqueles dois muito melhor do que ninguém.

O único a não falar até aquele momento era Rayger, ele mantinha um olhar sério sobre Rael, ninguém podia imaginar o que ele estava pensando.

Rael estava começando a se sentir tenso.

― Pai não vai dizer nada? Você está assustando meu noivo ― disse Mara quebrando o gelo.

― Samuel, não é? Por alguma razão você me parece muito familiar ― disse Rayger em seguida.

Aquelas palavras deixaram o coração de Rael em estado de choque, mas ele conseguiu esconder o susto. Rayger ficou olhando cada gesto ou expressão de Rael que parecesse suspeito, afinal ele não ia confiar o futuro de sua filha na mão de qualquer um.

― Familiar pai? Como?  ― perguntou Mara surpresa.

― Deve ser apenas impressão minha ― disse Rayger. ― Vamos entrar, conversamos lá dentro ― disse se virando.

― Esta mansão nós compramos essa semana Samuel, nossa família tem muito dinheiro. Compramos esse lugar apenas por causa do evento ― disse Mara agarrada ao braço esquerdo de Rael enquanto seguiam para dentro.

A sala de entrada era espaçosa e tinha muitos sofás bonitos. Havia vários escravos limpando ou preparando comida.

Rael na mesma hora se sentiu dentro de seu antigo ambiente familiar. E aquilo o deixou um pouco sem jeito, porque vários pensamentos tristes vieram a tona. Mas Rael se concentrou em seus objetivos e lutou para permanecer focado.

Quando alguém se aproximava do local em que um escravo estava, imediatamente eles corriam para outra direção para não ficarem no caminho. Mesmo assim eles mantinham uma expressão séria e controlada, mesmo que suas ações parecessem as de um cachorro abandonado.

Rael sabia bem como era aquilo, quando criança ele tinha que agir dessa mesma forma para evitar agressões e ofensas.

― Samuel, espero que se sinta à vontade. Ainda temos muito o que conversar, mas você parece se dar bem com minha filha ― disse Rayger.

Rael assentiu como forma de entendimento e agradecimento, e passou com Mara do lado e Rose do outro.

― Foi preparado um quarto para você, não sabíamos que você traria uma noiva, vamos preparar um para ela imediatamente ― disse Alves com um ar sério.

― Não se incomode, Rose vai ficar no mesmo quarto que eu ― disse Rael sem olhar para trás.

Rael já tinha notado o olhar lascivo dos irmãos sobre Rose. Desde a época que ficou com Janete e em seguida com Rita, ele começou a entender um pouco sobre o que uma mulher poderia oferecer e ele jamais deixaria Rose sozinha com aqueles dois.

― Mas isso… ― quando Alves tentou discutir, Rayger se intrometeu.

― Não vejo problema, se ela é noiva dele podem ficar juntos. Mude o quarto dele para um de casal por enquanto ― disse Rayger.

Mara não teve o que fazer, mas ficar em silêncio, Rael e ela já tinham se beijado e estavam com meio caminho andado, mas o problema é que ainda não tinha o veredito do pai.

― Depois de verem o quarto, venham para o quintal ― acrescentou Rayger e saiu caminhando para uma porta dupla ao fundo.

― Sim pai ― disse Alves e virou-se para um escravo. ― Você! Venha aqui e apresente um quarto de casal para esses dois ― Alves falava com ele como se tivesse falando com um animal, chegava a gritar.

O homem magro chamado correu rapidamente de cabeça baixa para a frente de Rael, Rose e Mara.

― Por favor, senhor e senhoras, venham comigo ― disse o escravo tomando a frente para os guiar.

Alves apenas olhou irritado para o escravo e depois virou-se saindo.

O quarto apresentado para os três era bem chique, havia uma cama de casal gigante no canto. Tinha espelhos nas paredes e até cortinas em volta da cama. Tinha até mesmo um sofá próximo a janela.

― Eu irei trocar os panos e limpar melhor esse lugar senhor ― explicou o homem para Rael.

― Não se incomode, o quarto está bom e obrigado ― disse Rael.

Mara e o escravo ficaram surpresos. Ninguém costumava agradecer um escravo.

― De-de na-nada senhor ― o escravo ficou tão atordoado que até agradeceu sem jeito.

Depois daquilo os três seguiram para o quintal onde Rayger os esperava.

Havia uma árvore grande no fundo e no meio um lago cavado, tal como uma piscina. Havia algumas cadeiras de madeira também próximas a parede.

Dois escravos que estavam limpando o local saíram assim que Mara chegou com Rael e Rose. Rayger estava de costas para eles observando a árvore.

― Pai estamos aqui ― disse Mara chamando a atenção do pai.

Rayger se virou olhando os três. Agora que Rael estava mais calmo, sem os irmãos de Mara tentarem comer Rose com os olhos. Ele deu mais atenção a Rayger e percebeu algumas pequenas linhas vermelhas nos olhos do mesmo, podia-se ver o olho levemente avermelhado, coisa mínima, alguém poderia dizer que ele tinha simplesmente esfregado os olhos por um tempo maior.

Correndo os olhos pelo pescoço do homem Rael pôde confirmar sua suspeita, havia as mesma pequenas veias espalhadas no pescoço, se não fossem olhadas com calma não haveria como perceber tão facilmente.

Rayger estava com o Veneno de Sonhos Pesados. Era um tipo de veneno que atacava uma pessoa por cerca de uns dois anos até enlouquecer completamente e retirar sua vida.

As pessoas não conheciam sobre esse veneno, por isso não sabiam da cura, nem de todos os efeitos. Mas o veneno fazia a pessoa ter sonhos com a criatura demoníaca da qual foi ferida.

Nesses sonhos essa criatura sempre torturava a vítima numa incessante repetição de eventos, de modo que a vítima não tinha mais como ter um bom descanso sem ter pesadelos torturantes.

Rayger tinha os sintomas desenvolvidos no menor estágio. Como seu cultivo era alto, sua proteção corporal contra venenos também era, então ele não morreria e passaria somente alguns poucos meses com os pesadelos antes de melhorar completamente.

― Você já deve ter instruído Samuel do básico, disse também que ele não era um homem fácil de ser dobrado ― disse Rayger olhando de Mara para Rael.

― Não mesmo, ele não parece levar a sério nenhuma das minhas ameaças ― disse Mara com uma certa animação.

― Isso é bom e é ruim por um lado filha, porque pode demonstrar que ele não está disposto a estar do nosso lado ― disse Rayger de volta.

Mara ficou um pouco em silêncio sem entender direito as palavras do pai.

― Mas o senhor me disse que não queria ninguém assustado como meu futuro marido ― disse Mara defendendo Rael.

― Não mesmo, mas não demonstrar nenhum respeito as suas ordens também não me agrada. Deixei as coisas chegarem a esse ponto para que pudesse pensar com calma ― disse Rayger de volta.

― Pai, do que está falando? Você mesmo disse que a escolha era minha, desde que eu pudesse escolher alguém forte, você não ligaria. Você só me proibiu de escolher alguém ligado a umas das outras quatro potências e Samuel não é ligado a nenhuma ― disse Mara.

― Ele não tem ligação com nenhuma família, e esse é o problema. Todas as crianças quando completam sete anos recebem o Registro da Alma que liga essa criança para sempre em sua família. Esse jovem a minha frente não tem nenhum registro ― disse Rayger.

O coração de Rael começou a disparar, porque Violeta havia falado sobre isso, e na época ele não deu muita atenção a esse fato. Violeta disse também que nem todas as famílias tinham condição de possuir tal coisa. Porque o valor para construir o pilar ou Pedra Formação do registro era muito caro.

― Ele veio de uma família pobre pai, não tinha como ele possuir isso ― disse Mara o defendendo.

Para Rayger, Rael poderia ser um espião, ele não tinha como ter certeza.

― Mesmo um pai comerciante poderia facilmente ter uma mísera Pedra Formação da Alma para registrar o filho ― rebateu Rayger de volta.

― Ele morou com a mãe até os dez anos, o pai dele nem fazia ideia que tinha um filho. Depois ele recebeu treinamento de uma mestra e somente aos quinze encontrou o pai ― explicou Mara que já tinha decorado em sua mente a falsa história de Rael.

― Isso não prova nada ― disse Rayger ainda insatisfeito.

Rayger já tinha um cultivo avançado, por tanto, assim que Rael pisou em sua frente ele procurou o registro da alma. Após não encontrar nada, surgiu várias possibilidades em sua mente de que Rael poderia ser um espião de uma das quatro potências.

Se isso fosse verdade, então ele deveria pôr um fim em Rael o mais rápido possível. Os planos de levar a família ao poder não deveriam falhar.

― Senhor Rayger, eu fui arrastado para isso contra minha própria vontade, eu estava meramente tentando viver minha vida quando sua filha cruzou o meu caminho. Se você perguntar a sua filha sobre isso saberá, desde o começo eu nunca fui atrás dela ― defendeu-se Rael.

― É verdade pai ― confirmou Mara.

― Se eu fosse um espião não seria o contrário? Outra coisa que vale mencionar é que sua filha me proibiu de ter qualquer outra mulher. Se eu fosse um espião jamais iria trazer Rose e ainda deixá-la saber que Rose é minha noiva. Um espião seria alguém perfeito que iria parecer o mais submisso possível. Esse não sou eu. Sua filha e eu nos conhecemos a muito pouco tempo, e por iniciativa dela, mas nunca aceitei obedecer tudo que ela quer ― disse Rael de volta firmemente.

― Você fala bonito, mas isso ainda não prova tudo ― disse Rayger tentando parecer duro, mas ele já estava começando a ceder.

Rael estava certo, porém ainda havia o ponto que ele poderia ter previsto tudo aquilo e agido exatamente de acordo para expor aquela teoria, não tinha como ter certeza. Se Rael pelo menos tivesse o registro da alma, ele então mandaria seus homens levantarem todas as informações possíveis.

― Essa conversa é perda de tempo, se não me querem aqui me mandem logo embora ― disse Rael fazendo uma curta pausa, depois prosseguiu. ― Agora se me querem, vamos tratar do que realmente é importante, a vida do senhor ― disse Rael fazendo Rayger enrugar as sobrancelhas.

Até mesmo Mara ficou surpresa do lado, ela não fazia ideia do porque Rael de repente tinha dito aquilo.




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