O Herdeiro do Mundo

022 - Entrando no Quarto Reino

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Yan Fonseca

Todos viram quando o chicote explodiu contra o peito de Rael e voltou para trás. Um lapso de energia se formou em volta de Rael e todos por um momento pensavam que ele estava começando a pegar fogo.

Se enganaram. A energia que cercava Rael gradualmente se acalmou e todos puderam ver Rael de olhos arregalados olhando para o alto. Um nevoeiro negro parecia correr dentro dos olhos de Rael, e seu corpo estava brilhando com energia vermelha saindo de todas as partes de sua vestimenta escura.

O rosto, o braço direito e uma parte visível do pescoço de Rael haviam veias vermelhas vibrantes, que faltavam pouco explodir na pele. Ninguém sabia o que estava acontecendo, mas todos puderam sentir o poder de um quarto reino fluindo em Rael que agora havia perdido o controle de sua energia.

Aquilo não durou mais do que alguns segundos. O corpo de Rael foi coberto por uma intensa aura negra que jogou vento e poeira para todos os lados. Naquele momento todos se sentiram como se estivessem assistindo ao nascimento de um próprio demônio.

Quando a aura sumiu e o corpo de Rael se estabilizou, ele não tinha mais nenhum ferimento e seu braço azul estava agora com algumas pequenas veias escuras espalhadas nele todo e iam até a mão.

Rael levantou-se e olhou o próprio braço, ele não sabia, mas seus olhos ainda estavam escuros e sua aura negra agora podia ser vista por todos, na verdade, aquela aura ainda estava diminuindo. Conforme mais alguns segundos passavam, os olhos de Rael voltavam ao normal e sua aura corporal diminuia até o ponto onde apenas ele podia notar.

Rael finalmente voltou a olhar o capitão Russel. Russel estava lá parado como os outros, com uma expressão cheia de surpresa e dúvidas.

― Desculpe ter parado o combate, agora eu acho que podemos retomar ― disse Rael sem se incomodar de esconder seu verdadeiro poder, porque agora todos ali presentes já tinham visto.

Russel travou os dentes e apertou o chicote inconformado. A pouco ele estava prestes a vencer e então algo ocorreu e Rael se curou completamente, além disso, ninguém conseguia explicar porque Rael tinha um braço azul e nem mesmo porque tinha um tipo de aura tão maligna, que a pouco eles haviam sentido. Agora com a aura estabilizada ninguém sentia mais aquele horror, porém, todos sabiam de onde aquela aura tinha vindo antes.

― Eu não sei que truque você usou, mesmo assim não vai sair com vida daqui! ― Russel rugiu, preparou seu chicote e lançou.

Rael se esquivou para o lado com certa facilidade, quando comparada a outras vezes. Outro ataque e Rael conseguiu se esquivar novamente. Outro ataque e mais uma esquiva. Mesmo os ataques tendo a mesma velocidade de antes, Rael estava conseguindo se esquivar com até certa facilidade, embora ele ainda precisasse se concentrar um pouco.

― Quem é você desgraçado! ― Russel batia o chicote de um lado a outro furioso, ele não fazia ideia do porque Rael tinha aumentado tanto sua velocidade.

Mais uma chicotada e dessa vez Rael ficou parado. Quando o chicote estava prestes a atingir Rael, ele levantou a mão azul e agarrou por conta própria os fios elétricos. Rael estava mais forte e mais resistente pelo avanço de reino, porém, ainda sentia o incômodo dos raios o eletrocutando.

― Agora peguei você! ― Russel riu abrindo um sorriso, mas quando tentou puxar Rael, esse não saiu do lugar.

― Ao contrário. Eu peguei você ― disse Rael de volta e puxou o chicote elétrico.

Russel saiu do chão indo de cara para Rael. Rael soltou o chicote e levou a mão azul para trás acumulando energia, as veias do braço pareciam bombear energia de escuridão, engrossando por um breve momento.

Russel percebeu que não ia consegui evitar o golpe, então ele descartou o chicote que se desmanchou no ar, em seguida juntou os dois braços contra a cabeça para se proteger, formando um X.

Paaah!

O soco explodiu nos braços de Russel e todos puderam ouvir alguns craks. O chão em volta de Rael se abriu com um monte de terra e poeira sendo jogada em volta, e o corpo de Russel que ia para Rael começou e retorna o caminho de volta. Ele voou pelo ar por quase vinte metros e depois caiu rolando pelo chão.

Aquela cena chocou todos no acampamento. O barulho do golpe, o arremesso do capitão deles, todos estavam surpresos.

O líder depois de ver aquilo, recuou alguns passos para trás. Rael não estava vendo porque estava de costas e aturdido com a sua nova força adquirida, nem ele esperava que havia ficado tão forte.

Rael parou para olhar as próprias mãos. A força adquirida ao avançar para o quarto reino era algo assustador. Talvez o dobro da força ou quem sabe o triplo. Rael podia sentir impulsos de energia espalhados por cada parte do seu corpo. O quarto reino era realmente diferente de todos os outros.

Russel levantou-se, apoiando a cabeça no chão, mesmo depois de receber um golpe daqueles e virou-se para Rael. Seus dois braços da frente estavam largados para baixo, quebrados em várias partes, era possível ver as pontas dos ossos perfurando a pele, saindo para fora junto com um bocado de sangue. Mesmo sabendo que havia perdido aquele combate, Russel não demonstrou medo ou fraqueza diante de seus homens.

Rael se aproximou de Russel caminhando, a firmeza nos olhos do inimigo era de certa forma louvável e isso chamou atenção de Rael.

― Parece que vou ser morto por alguém sem nome ― reclamou Russel, sem ter o que fazer quando Rael chegou a frente dele. Seu rosto estava um pouco machucado devido o impacto e seu nariz estava quebrado.

― Meu nome é Rael Raymonde. Está satisfeito agora? ― disse Rael baixinho.

― Por que decidiu me contar isso agora? ― perguntou ele de volta.

― Eu não sei ― respondeu Rael e levantou o braço direito.

―Em pensar que eu morreria em um lugar como esse ― resmungou Russel sem nenhuma reação, ele pelo menos estava feliz por Rael ter dito seu nome a ele.

Paaaaaah!

Rael não teve misericórdia. O segundo soco pegou em cheio seu rosto e o corpo de Russel voou mais uns trinta metros. Rael baixou a mão direita ainda sentindo o novo poder vibrando, sua força física tinha aumentado formidavelmente.

Antes ele não seria capaz de causar ferimentos sérios em cultivadores do quinto reino, agora, ele havia derrotado Russel com apena dois golpes.

Os homens procuraram em volta pelo seu líder, depois do capitão, seu líder seria o mais forte, porém, ninguém o encontrou. Ele havia fugido. Os homens olharam para as costas de Rael, todos tiveram o mesmo pensamento “Fugir!”. Uma correria começou e homens seguiam para todos os lados se embrenhando mata adentro.

Rael ativou o Movimento de Terra e partiu buscando um a um seus alvos. Mesmo que sua força não tivesse aumentado como antes, ele não ia perdoar aqueles homens. Todos viram o seu braço azul e o seu verdadeiro poder.

Rael era como um ceifador sem expressão, matando um e outro que encontrava pelo caminho. Em cerca de cinco minutos ele matou todos os homens que encontrou fugindo e voltou para o acampamento. O único que fugiu foi o líder e Rael não pôde fazer nada, pois perdeu completamente o rastro dele.

Os reféns continuavam lá amarrados e ajoelhados no chão. Quando viram Rael todos ficaram com expressões complicadas, porque para eles, Rael era alguém que gostava de matar e parecia sentir prazer, embora não expressasse qualquer sentimento. Isso era o que parecia, porque nenhum homem tira a vida de alguém sem sentir absolutamente nada. Rael tirou várias e várias vidas, e ficava sempre com aquela mesma expressão séria no rosto.

Rael se aproximou deles e quebrou as correntes das mãos e dos pés deles, por um momento todos tinham se encolhido de medo pensando que Rael ia matá-los, aquilo foi um pouco surpreendente. Eles se lembravam que Rael havia dito que não ligava para os reféns para o líder, que fugiu.

― Por que você nos ajudou? ― perguntou o homem adulto, ele estava no quinto reino nível três, parecia ser o mais forte e mais velho deles.

― Vocês conhecem Janete? Eu tenho uma promessa com ela, por isso eu os resgatei ― explicou Rael sem dar maiores detalhes.

― Você encontrou minha filha? Ela está bem? ― perguntou o mesmo homem apressado.

Rael correu os olhos pelos outros e percebeu que cinco deles estavam feridos, incluindo o próprio pai de Janete.

― Ela está bem sim, estará aqui em alguns minutos quando perceber que os bandidos foram mortos. Agora vocês que estão feridos tomem essas pílulas, irá ajudar a curar os ferimentos e recuperar suas forças ― Rael deu a cada um deles uma pílula de cura.

― Eu me chamo Malcon Alencar, agradeço do fundo do meu coração por ter salvado eu e meus filhos, agradeço também pelas pílulas ― disse o homem rapidamente se curvando a Rael.

― Não precisa me agradecer, eu tenho uma promessa com sua filha e só quero os agradecimentos dela, de vocês não quero nenhum ― Rael explicou e curioso perguntou.― Todos são filhos seus? E por acaso onde estaria sua esposa? ― a pergunta fez Alencar fazer uma meia careta como se lembra-se de algo ruim.

― Nem todos são meus filhos, alguns foram envolvidos no meio da confusão. Devido uma dívida que minha família possuía, minha esposa e filhas foram tiradas da nossa família e transformada em escravas ― explicou ele numa expressão extremamente triste.

Todos os rapazes, os cinco filhos feridos, ficaram em silêncio comovidos, aquele assunto parecia ser um tabu para eles. Os outros quatro que não estavam feridos apenas ficaram em silêncio e Rael pôde entender que eles não faziam parte da família.

Rael odiou ainda mais a existência da escravidão, porque ele sabia o que aquilo significava. Rael também passou por coisas horríveis e se lembrava de como os outros escravos eram tratados.

― Eu vou até o rio me lavar e trocar essas roupas, vocês poderiam me fazer um favor? Quero que juntem todos os braceletes desses bandidos e reúnam todas as pedras espirituais das bestas mortas. Quando eu voltar conversaremos, tenho certeza que Janete já terá chegado ― disse Rael e se virou. Os homens rapidamente se apressaram para cumprir aquele pedido.

Rael tomou um banho, descartou as roupas sujas rasgadas, tirou um novo conjunto das mesmas roupas do bracelete e se vestiu. Vestiu suas novas luvas e voltou a concentrar sua energia para esconder dez níveis de seu poder.

Quando Rael já estava deixando o rio, ele olhou de lado e seus olhos se alargaram. Ele não imaginava encontrar na parte rasa das águas uma erva tão rara, a Confrei. Era uma planta de caule verde cheia de pequenos pêlos brancos e com rosas roxas brilhantes. Seu uso dentro da alquimia era apenas para meios curativos em pessoas normais que não conheciam todos os efeitos dela. Rael é claro, tinha outros planos.

Uma hora depois, Rael retornou para o acampamento. Havia uma pilha de pedras espirituais de bestas e braceletes reunidos. Ninguém ousava esconder qualquer coisa de Rael. Rael era o salvador deles e ao mesmo tempo um monstro que matava sem apresentar nenhum sentimento.

Janete já havia chegado como Rael prévia e todos agora estavam reunidos próximos a uma barraca, estavam comendo pães e bolo com chá. Desde que foram capturados não puderam fazer nenhuma refeição decente. Ao verem Rael todos se levantaram como se tivessem vendo algum tipo de rei.

Rael não se incomodou com os olhares e pediu que todos voltassem a lanchar. Ele reuniu alguns galhos, armou suas grades de alumínio e então começou a assar carne de uma besta, depois de temperar com algumas ervas. Todos ficaram surpresos porque não esperavam que Rael fosse fazer aquilo e voltaram a seus lugares comendo.

― Samuel, você aceita chá? ― quem ofereceu foi Janete, que chegou timidamente ao lado dele. Rael aceitou o copo e bebeu um gole do chá morno.

― Você conseguiu acabar com todos, eu estou impressionada ― disse Janete se sentando ao lado de Rael. Rael só se levantava para girar a carne quando era preciso.

― Eu sempre mantenho minha palavra ― Rael sorriu para a linda Janete, que ficou um pouco sem jeito.

Ela não tinha nenhuma amizade especial com esse homem, mas foi ele o salvador do que sobrou de sua família, então ela estava muito agradecida por aquilo.

― Me fale um pouco sobre sua família enquanto preparo essa carne ― disse Rael olhando Janete de lado. A mulher se concentrou e começou a resumir sua história.

Eles tinham uma casa grande separada de uma cidade, como se fosse uma fazenda, e moravam todos reunidos. Eles conseguiam sobreviver graças a uma mina de mineração que havia na montanha atrás da casa deles. Mineravam e vendiam as pedras preciosas na cidade. Eles tinham até mesmo uma plantação, onde produziam ervas.

Certo dia, a família Sangnos chegou ao local com inúmeros membros e até guardiões do império, eles continham uma documentação provando que aquela mina era deles. Então eles tomaram tudo incluindo até mesmo a casa. Janete tinha três irmãs mais novas e todas juntas da mãe foram pegas como escravas para compensar o uso da mina.

Como eles nunca se preocuparam em fazer o registro da mina isso acabou acontecendo. O pior é que a família Sangnos é uma das cinco potências, eles não tiveram o que fazer, pois os mesmos tinham provas incontestáveis de serem donos da mina.

Depois de terem a casa tomada, mãe e filhas tomadas, eles se juntaram e partiram. Fazia cerca de um ano que estavam vivendo assim ao relento, caçavam bestas, ervas e quando chegavam em alguma cidade vendiam os bens conseguidos e compravam comidas e remédios.

No fim acabaram encontrando com esse grupo. Os irmãos que se feriram e o pai, lutaram para que ela pudesse escapar, porque se a raptassem, ela não teria o mesmo tratamento.

Rael ficou impressionado com a história dela, mas não entendeu uma coisa. Se eles haviam pegado as irmãs e mãe dela, porque não a pegou? Ele perguntou.

― Eu não estava com minha família quando isso ocorreu, estava voltando de um treinamento. Quando voltei minha mãe e irmãs já tinham sido pegas. Meu pai e meus irmãos me levaram voando antes que o clã Sangnos descobrisse que havia mais uma mulher que eles poderiam escravizar.

Mulheres nesse mundo pareciam ser mesmo bem visadas, Rael não conseguiu deixar de pensar isso depois de ouvir a história de Janete.

Depois de comerem, quatro homens se apressaram e agradeceram Rael por ter salvado eles. Eles eram caçadores e foram pegos no meio de toda a coisa, não faziam parte da família de Janete. Depois eles partiram, ficando apenas Malcon, Janete e os outros cinco.

Depois daquilo, Rael foi ver os espólios. Rael inspecionou o bracelete de Russel, mas não encontrou nenhuma evidência dos pergaminhos que seriam usados para a escravização. O único pensamento que restava era que esses pergaminhos deveriam estar em posse do líder que fugiu. Como Rael não conseguiu encontrar o que queria disse.

― Janete você e sua família podem ficar com todos esses bens que foram reunidos ― Rael disse muito simplesmente, enquanto atirava o bracelete de Russel de volta a pilha.

Todos olharam surpresos para Rael. Ele realmente estava deixando aquele monte de bens para eles? Seria possível? Ninguém podia imaginar o dinheiro que esses bandidos haviam acumulado, mas seria o suficiente para recomeçar uma vida na cidade para uma pequena família.

― Nós não podemos aceitar Samuel, você fez tudo isso sozinho e ainda nos salvou ― disse Janete sem graça. Não era só ela que estava sem graça, o pai e os irmãos também.

― Mas vocês perderam tudo, vocês não tem nada e eu não preciso dessas coisas ― disse Rael falando normalmente.

― Mas isso é muito, jamais poderemos pagar por tudo que você fez a nós ― explicou Janete.

― Ah sobre isso não se preocupe, eu só quero que mantenha sua promessa ― disse Rael com um sorriso.

Janete se virou para o pai e irmãos, todos eles fizeram um sim com a cabeça. Ninguém podia negar a força de Rael e agora seu bom coração.

Rael não era afinal um simples assassino sangue frio, ele estava demonstrando preocupação com eles e aquilo já mostrou a eles um pouco mais de humanidade. Sem mencionar o fato que se não fosse por Rael, eles não teriam mais suas liberdades e sua irmã teria sido capturada e abusada por quase cinquenta homens.

Quando Rael estava no rio. Janete contou tudo que aconteceu com ela, que ela já tinha sido salva e então tinha prometido a esse salvador, que se ele salvasse sua família ela cumpriria o desejo dele. Ao explicar o pedido de Rael, os irmãos não deixaram de pensar que ele gostou de Janete.

Rael também coletou algumas bestas mortas e até as cabeças de alguns homens, incluindo a de Russel. Vários desses homens tinham recompensas por algum tipo de crime. Os corpos Rael juntou depois em uma pilha e colocou fogo.

Depois de juntarem todos os espólios e armazenarem em um único bracelete, todos partiram dali com receio que o líder pudesse voltar com apoio. Janete insistiu que Rael ficasse com eles para os proteger enquanto a noite caia, aquilo era apenas uma desculpa para adiar a promessa um pouco mais.

Rael não se incomodou em os seguir um pouco, afinal ele ainda não tinha recebido sua recompensa, mas não se sentia a vontade de cobrar isso tão descaradamente. Ele também estava aproveitando aquele tempo para se acostumar melhor com o próprio corpo.

Cerca de dez quilômetros já escurecendo, eles retiraram as barracas dos braceletes e armaram em um local cercado por uma densa floresta ao lado de uma montanha. Janete, que havia se preparado mentalmente o dia inteiro para aquilo, puxou Rael pelo mato, saindo de perto de toda sua família. O coração dela estava aos saltos, mesmo ela já tendo mais de trinta anos, afinal, ela nunca tinha tido algo com algum homem e Rael seria sua primeira experiência.

Já Rael estava feliz, ele finalmente veria o corpo de uma mulher nua e dessa vez iria olhar os detalhes para aprender melhor.