O Herdeiro do Mundo

019 - Evocação de Bestas

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Yan Fonseca

 

A velocidade de Rael era completamente fora do esperado por qualquer um presente ali. Quando ele avançou já apareceu na frente do gordo, que estava mais perto.

Rael acumulou sua energia na palma da mão direita e então acertou a barriga do gordo, que só conseguiu erguer as adagas, ele nem chegou a conseguir defender.

O golpe o arremessou uns três metros para trás. Quando caiu se arrastando de costas pela terra, ele vomitou um bocado de sangue sentindo toda região da barriga e do peito queimarem.

A mulher que já ia fugir, abriu a boca, surpresa. O magrelo não teve tempo de ficar surpreso porque logo em seguida ele estava sendo atacado.

Rael estava se dirigindo a ele, diferente do gordo, o magro carregou seu corpo com aura e brandiu a espada contra Rael, ele usou toda sua força, porque depois de ver seu parceiro receber um golpe daqueles, notou que Rael não era alguém normal.

Rael lançou o braço direito para frente pegando o fio da espada na mão, e a quebrou entre os dedos. Em seguida ele avançou ainda mais a frente e socou o queixo do homem despreparado, de baixo para cima. Deu pra escutar um “Crak” quando o homem subiu um metro, em seguida ele caiu de lado morto, com um olhar sem vida e boca aberta.

A mulher ficou ali sentada na terra com aquela expressão de pura descrença. Com apenas um movimento Rael derrubou o gordo, com outro deu um golpe fatal no magrelo, isso sem mencionar o fato de que ele quebrou a lâmina de uma espada na própria mão. Aquilo seria um sonho?

Rael ficou parado por um tempo, olhando o magrelo morto esperando algo acontecer e seu poder aumentar. Nada ocorria. O gordo, que ainda estava caído no chão, olhava para Rael desejando que ele o esquecesse, ele havia percebido que seu parceiro havia morrido.

Ele também não estava conseguindo se mover, o golpe que Rael deu nele havia de alguma forma danificado toda sua região do peito e da barriga, de modo que ele se sentia estranhamente dormente e com uma enorme ânsia de vômito. Ele estava começando a ficar pálido.

― Sua vez ― Rael se virou e pegou a espada do magrelo do chão. Depois se dirigiu ao gordo.

― Espere um pouco! Você é muito forte e nosso chefe ele… ― Rael segurando o punho da espada com a mão direita, desceu o braço fazendo a lâmina perfurar e rasgar a testa do gordo no chão.

Ele ficou ali de olhos esbugalhados com o rosto tremendo enquanto um pouco de sangue fluía. Depois disso, Rael olhou para a mulher. O olhar inocente e ao mesmo tempo incomum de Rael a fez se espantar.

Ele havia acabado de tirar duas vidas e estava muito calmo, nem parecia ter sido ele que tinha feito aquilo. Agora esse jovem assassino com olhar inocente a encarava.

― Deu certo! ― Rael de repente falou um pouco alto enquanto sentia sua energia avançar um nível. Reino três nível três.

Aquele aumento levaria pelo menos um mês cultivando antes de avançar, e ele avançou em poucos dias desde que começou esse plano.

Seu braço direito vibrava como se estivesse envolto em energia e Rael ficou muito animado, pois por um momento pareceu que não ia ter resultados.

Já a bela mulher ficou ali com uma expressão complicada. Rael estava comemorando que matou aqueles dois?

Rael voltou a olhar a bela mulher. Ela tinha uma pele branca, cabelos escuros, lisos e curtos na altura do ombro, uma boca bem vermelha e seus olhos eram verdes. Seu rosto tinha uma sinfonia agradável, enquanto seu corpo não era de se jogar fora. Ela tinha peitos e pernas bem atrativos, embora estivesse usando um vestido sujo e rasgado, ainda aparentava ser bonita.

― Esses eram os únicos homens que perseguiam você? ― Rael perguntou e se aproximou da mulher estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.

A mulher ainda estava se recuperando de todas as surpresas.

― Ah sim! Desculpe, eu não me apresentei, me chamo Samuel ― disse Rael ainda mantendo a mão estendida, porque a mulher não apresentou sinais de reação.

A mulher pareceu acordar de um transe e aceitou a ajuda, se levantando.

― Me chamo Janete ― disse ela sem jeito.

― Está ferida Janete? ― perguntou Rael olhando a mulher de um lado a outro, os dois ainda estavam de mãos dadas.

― Eu estou bem, obrigada, e obrigada por me salvar ― respondeu ela e só naquele momento soltaram as mãos.

― Não foi nada ― respondeu Rael em seguida. ― Eram só esses dois? ― perguntou Rael para confirmar.

― Não, eles são um grupo grande, meu pai e meus irmãos foram todos aprisionados, eu fui a única que conseguiu escapar ― disse ela um pouco desanimada.

― E onde esses homens estão? Pode me levar até eles? Irei salvar sua família ― disse Rael.

Janete não podia mais duvidar de Rael, ele aparentava ser fraco, mas era muito poderoso.

― Alguns deles podem estar até no quinto reino, isso não seria uma tarefa fácil ― disse Janete de volta.

― Não tem importância, contanto que você me leve, eu acharei uma maneira de ajudar a todos. Você não precisa ficar preocupada ― disse Rael que na realidade queria apenas matar, mas fez parecer que queria ajudar ela.

― Tudo bem, eu vou levar você para o local mais próximo, porém não posso deixar que eles me percebam, eu sou a única mulher e isso não seria fácil pra mim ― disse ela.

― Eu não entendo, porque você tem medo de ser a única mulher? ― Rael perguntou curioso.

Sim, Janete era uma mulher bonita, mas ele não entendera o fato de homens acharem melhor pegarem uma mulher. Ele não fazia ideia dos prazeres que uma beleza daquelas poderia fornecer a um homem.

― Bom, eu vou mostrar o caminho ― Janete passou por Rael ignorando a pergunta, e seguiu caminhando.

Rael apenas se virou a seguindo, deixando os mortos para trás, nem chegou a conferi os braceletes, ele estava mais interessado era em matar.

Matar para Rael não tinha sido nada, ele tinha o coração frio e aquilo não rendeu nem mesmo um único fio de preocupação.

Matar dois lixos o fazia se lembrar das pessoas que o atiraram do penhasco. Essa linha de pensamento fornecia a Rael um tipo de prazer que ele não sabia explicar. Ele sempre pensava em Reges, esse seria um dos primeiros que ele se vingaria assim que pudesse.

Uma hora depois, os dois estavam no alto de uma colina, escondidos entre vários arbustos. Lá em baixo estava um acampamento e vários homens andavam de um lado para outro. No meio do acampamento havia uma roda de pessoas ajoelhadas e acorrentadas de mãos para trás.

Rael lançou seus instintos mais longe e analisou os níveis. Alguns no terceiro reino, alguns no quarto reino e dois no quinto reino, como Janete havia falado.

De fato não ia ser uma tarefa fácil. Depois ele analisou o terreno. Uma mata densa e bem fechada em volta do acampamento, tinha um rio a direita com cerca de meio quilômetro quadrado.

Era comum um acampamento ser montado perto de um rio quando havia um grande número de pessoas. A água, é afinal, necessária para todos.

― Janete você pode ir se esconder, eu assumo daqui ― Rael disse e foi saindo engatinhando para trás do arbusto.

A mulher seguiu ele e ambos saíram se afastando da beirada.

― Samuel o que vai fazer? ― perguntou ela curiosa.

― Tenho um plano que pode funcionar se essa área tiver muitas bestas, considerando que tem um rio tão próximo, não devo estar errado ― disse Rael, seguindo caminho por uma trilha e descendo na direção das costas do acampamento onde ficava o rio.

Janete estava com medo de seguir Rael, mas estava preocupada com ele e com sua família.

― Você está planejando vir comigo? Eu não acho que seja uma boa ideia ― disse Rael olhando para trás, enquanto era seguido por ela.

As várias árvores em volta escondiam eles completamente de qualquer possível visão de alguém olhando de baixo.

― Eu não vou ficar parada enquanto você arrisca a vida por nós, isso não está certo, você é um estranho e não me deve nada, além disso já até me salvou ― disse ela.

― Mas e aquela história de você ser a única mulher? ― perguntou Rael parando.

Se Janete seguisse ele não seria uma boa ideia, ele queria seguir seu plano sem ficar se preocupando com nada.

― Se existir uma forma de salvá-los, então eu me arriscarei e ouvirei tudo que você tiver a dizer ― disse ela parando perto de Rael.

― Tudo bem, vamos fazer um trato então ― propôs Rael olhando seriamente a mulher de frente. ― Se eu salvar sua família, você me deixará ver todo o seu corpo nu ― disse Rael firmemente.

A mulher arregalou os olhos, surpresa. Rael não tinha cara de pervertido, mas lá estava ele dizendo algo como aquilo.

― Você quer me ver nua? ― a mulher perguntou pra ter certeza.

Se ele pudesse salvar mesmo toda sua família, ela estava disposta a fazer muito mais do que simplesmente mostrar o corpo para ele.

― Sim, por acaso você é casada e não pode? ― perguntou ele no mesmo tom inocente de antes.

Janete tinha 33 anos, mas sua aparência era a de uma mulher de vinte. Ela não tinha marido nem qualquer noivo.

Embora ela estivesse envergonhada, ela já era uma mulher adulta e o jovem em sua frente era bem bonito também, apesar dela não conseguir julgar a idade dele ou algo assim.

Colocando na balança o que ele cobrava pelo que ele pretendia fazer, aquilo era simplesmente nada, ela se tornaria até uma concubina dele se ele pedisse como pagamento.

― Tudo bem! Se você salvá-los, eu farei qualquer coisa que você quiser ― disse ela baixando o rosto.

Ela não tinha o poder para salvar sua família, não daria tempo pedir qualquer ajuda, eles estavam dias longe de qualquer cidade. Até ela ir e voltar toda sua família já seria escravizada e vendida por aí.

― Oh! Isso será muito bom, espero que a irmã Janete não volte atrás com sua palavra ― disse Rael se virando. ― Agora se esconda, desde que eu tenha uma recompensa a receber, você não precisa se preocupar em ajudar.

― Mesmo assim se eu puder ser útil, eu ajudarei ― disse ela, ainda disposta a seguir Rael.

― Se a irmã Janete vir junto comigo não creio que eu conseguirei cumprir meu plano. Peço que se esconda por aqui por cima e não desça. Em poucos minutos esse lugar será um caos e haverá bestas por todos os lados ― explicou Rael.

― E a minha família? ― perguntou ela, surpresa mesmo sem fazer ideia do que Rael iria fazer.

― Não existe um meio seguro de salvar sua família contra um bando desse tamanho, mas farei o possível para não deixar eles se ferirem. Afinal eu quero minha recompensa ― disse Rael sorrindo.

Janete não soube como reagir aquilo. Rael tinha um ar tão inocente e um pedido bem sem vergonha, no final aquilo era incomum.

― Tudo bem, eu obedecerei você ― dizendo isso Janete se virou e começou a subir de volta.

Ela nunca pensou que um jovem que matava os outros tão facilmente, iria fazer aquele tipo de pedido e propor uma recompensa como aquela. Ela suspirou, seria mil vezes melhor ela dever isso a Rael, do que ser pega e abusada por bandidos ou perder toda sua família e ficar sozinha.

Rael estava empolgado, desde que ele conseguisse aumentar sua própria força e pudesse ver uma mulher nua, então ele teria ainda mais respostas e mais experiência naquele assunto. Janete também era uma bela mulher, então com certeza ele teria uma boa visão.

Conforme Rael se aproximava do seu destino, ele reduzia toda a sua aura para não ser localizado. Para conseguir fazer isso com sucesso, ele tinha que reduzir os passos e se tornar mais lento, era necessário, se ele quisesse chegar na beirada do rio sem ser localizado.

Pelo grande número de homens, seria possível que ele encontrasse com alguns grupos fazendo rondas.

Sobre o funcionamento da escravidão. Rael sabia que havia sido criado pergaminhos especiais cedidos pelo próprio imperador de cada nação. Esses pergaminhos eram controlados e entregues só o necessário para que as famílias pudessem ativar a técnica proibida de escravizar outros.

Haviam regras para a escravidão, tinha que ser provado que a família devia muito e não conseguiria pagar o valor, desse modo pessoas da família eram escravizadas e a dívida seria quitada.

Uma vez que o pergaminho fosse ativado e a técnica fosse usada, ele armazenaria o nome do escravo e do mestre criando um vínculo eterno. Então o mestre mantinha o pergaminho com ele, como prova de sua mais nova aquisição.

Uma vez que o pergaminho era usado, esse escravo ficava preso a ele e um pergaminho não podia abrigar mais de um nome.

Se o pergaminho fosse destruído da maneira errada, o escravo morreria. Até para desfazer o contrato haviam algumas regras.

Naquele momento Rael ficou pensando em como aqueles homens teriam esses pergaminhos. Ou se existia algum outro meio de escravizar pessoas além desses pergaminhos.

― Família inútil, a única mulher fugiu no meio da confusão, o chefe está furioso, ainda por cima aqueles dois idiotas não voltaram ― disse um homem, passando com outro próximo a Rael, que ficou atrás de uma árvore.

― Você acha que eles estariam se aproveitando dela? ― perguntou o outro.

― Impossível, eles não teriam coragem. O chefe é sempre o primeiro, depois ele nos deixa fazer isso. O último que passou na frente do chefe hoje já não está mais entre nós ― disse o primeiro novamente.

― Tem razão, eles são idiotas, mas não tanto ― disse o outro confirmando enquanto iam se afastando.

Rael apenas relaxou os pensamentos e voltou a seguir seu destino depois que os dois se afastaram.

Minutos depois ele conseguiu chegar na beirada do rio. Então como Violeta o ensinou, ele juntou energia na ponta do dedo indicador da mão direita e começou a escrever os símbolos bestiais.

Tratava-se de uma evocação de bestas, onde ele faria todas as bestas em um raio de três quilômetros virem para essa região. Mesmo que as bestas não fossem fortes, ainda iam gerar um caos e era no meio desse caos que Rael pretendia agir.

A evocação precisava ser feita em um local próximo já visitado pelas possíveis bestas, e nada seria mais visitado do que um rio.

― Pronto isso deve servir ― disse Rael, olhando os símbolos riscados na terra molhada do lado do rio. Em seguida ele levantou a mão direita azul sem a luva na mão.

― Ativar Evocação de Bestas! ― gritou ele e bateu a mão em cima, carregada de poder, todas as letras começaram a brilhar.

Nesse exato momento vários e vários rugidos, grunhidos e todos os tipos de barulhos bestiais puderam ser ouvidos de todas as regiões de várias distâncias.

Rael sorriu se levantando. Em alguns minutos esse lugar inteiro ia virar uma verdadeira bagunça.

No meio do acampamento todos os homens pararam quando ouviram os diversos rugidos bestiais.

Bestas não costumam rugir assim em conjunto, isso era algo bem incomum. Eles não faziam ideia do que estava por vir.