Ascensão de um Deus

720 - Esperança

Autor: Calebe Piccoli Camargo

Enquanto isso, Le Chang estava treinando.

Sobre ele havia uma grande pressão o levando até o limite de sua força.

“Recue... Recue... Recue...” Murmurava ele, sua voz deixava claro que ele sentia muita dor.

Não era para menos, a pressão que ele estava enfrentando era poderosa e mortal.

Sem poder usar seu cultivo, linhagens, heranças e energias, ele se via totalmente indefeso.

Sua coluna estava toda trincada e seus ossos da perna quase viravam pó dentro de sua carne.

O Sangue mal chegava ao seu cérebro e seus olhos estavam quase sendo esmagados por seu próprio crânio.

Sangue escorria por sua boca, narinas, olhos e ouvidos e era possível ver lágrimas escorrendo por sua face.

O sofrimento que ele estava passando, não era simplório.

Era preciso ter uma força de vontade surpreendente para resistir a tanto tempo.

Mesmo seu corpo sendo extremamente poderoso, afinal, foi remodelado há algum tempo pela própria Criadora.

Ele tinha uma vitalidade singular, suas feridas curavam-se sozinhas a olho nu e isto não era derivado de suas habilidades, mas sim devido ao seu corpo único e pelas modificações que ele sofreu com o passar dos anos.

No entanto, mesmo com isso, ele não conseguia diminuir absolutamente nada da pressão que havia sobre ele.

“Você depende demais do seu cultivo e das coisas que lhes foram dadas. A Energia Dourada é uma força única, capaz de tornar seu cultivador em um monstro em poucos anos.

Contudo, isso fez de você dependente de um poder que não necessariamente lhe pertence.

Sim, você conquistou a maioria das coisas, mas entenda que praticamente ninguém as recebeu da forma que você as ganhou.

Quantos cultivadores perderam seus pais? Quantos tiveram seus Clãs exterminados? Quantos sofreram horrores, e, mesmo assim, nada receberam além de tristeza?

Você foi privilegiado, afinal, sua tristeza foi grande, mas acha mesmo que foi aquele que mais sofreu?...” – Abismo.

Le Chang levantou sua cabeça com muita dificuldade e era possível ver que a dor havia tomado conta de sua mente.

“Existiram pessoas que foram jogadas aos leões e devoradas vivas sob o aplauso de multidões. Houveram pessoas que ainda vivas foram serradas ao meio ou jogadas no óleo fervente.

Apenas por acreditar em algo ou alguém, pessoas foram massacradas, açoitadas, apedrejadas e mortos pelo fio da espada.

Foram perseguidos e maltratados.

Todavia, jamais desistiram da fé inabalável que residia em seus corações.

Pessoas que o mundo não foi digno de os ter.

E você tem a coragem de fazer essa expressão de derrota?!

Diga-me! Você realmente acha que seu sofrimento foi o maior? Acha que o que você tem foi porque você era a melhor pessoa que existia? Sua moral, personalidade, me fale garoto!

Você é perfeito?!” A voz do Abismo soava assustadora e Le Chang foi forçado a levar sua cabeça entre seus joelhos.

Ele soluçava e o sangue juntava-se as suas lágrimas, criando um rio que escorria e transformavam o disco branco em uma figura mórbida de cor vermelha.

“Diga-me! Você é digno?!!

Quem disse que você merece tudo isso?

Você é apenas um menino com medo da escuridão, e que quando o terror se achega, corre para os braços da mãe.

Você sofreu, mas não me diga que o seu sofrimento lhe deu o direito de ter o que você tem, sua dor não é nada, sua solidão é pífia, sua tristeza é pó, suas conquistas são fracas e seu orgulho é imenso.

Eu presenciei pessoas que enquanto sofriam mortes agonizantes, ainda assim, levantavam a cabeça para o céu e cantavam com o que lhes restava de fôlego...” – Abismo.

“AHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!” Le Chang berrava e esmurrava o chão, seus dedos quebraram e seus ossos cortaram sua pele.

Ele sentia-se ficando cada vez menor, sua força se esvaia pouco a pouco e sua sanidade era levada para longe.

“Você tem ideia do que é uma pessoa andando por um corredor longo e escuro, ouvindo os gritos de seus irmãos, sentindo o cheiro dos cadáveres, sabendo que quando atingisse a luz no fim do túnel encontraria sua morte pelas feras selvagens e, ainda assim, erguer a cabeça para o céu e louvar?

Você não possui essa fé garoto.

A diferença entre eles e você é bem simples, eles acreditavam mesmo sendo fracos, mas acabavam sendo fortes apesar das claras fraquezas.

Eles eram capazes de viver acreditando em algo além deles, eles não eram dependentes de um conto de fadas para viver, não, eles sabiam com absoluta convicção de que o fim de suas vidas, não era o verdadeiro final de suas histórias....” – Abismo.

“Eu... Cof... Cof... não tenho o... luxo... de depender dos outros... A minha fé... deve estar em mim... Eu preciso... Eu preciso ficar mais forte... Eu... Somente eu... Eu preciso acreditar em mim... A minha fé está... voltada... para minha força... Cof... Cof...” – Le Chang.

O garoto deu um soco contra o chão, mas não trouxe seu punho de volta, apesar da dor de ter seus ossos cravando em sua carne, ele ainda colocou mais força e lentamente, pouco a pouco, começou a erguer-se do chão.

“E... Eu... n... não mereço... Não mereço... Eu realmente não mereço... Você tem razão... Meu sofrimento é ridículo... Eu estou resmungando por nada... Eu realmente não mereço...” – Le Chang.

“Sua sede por poder foi sustentada sob uma base frágil.

Você pode ter mudado seus conceitos e levado seus sonhos não apenas a sua família, mas para os demais também.

Contudo, um sonho que é construído sobre um alicerce ruim, por mais belo que seja, ele ruirá.

Suas palavras são belas, seu poder é singular e seu potencial é infinito, mas diga-me, até quando o motivo pelo qual você se move será o suficiente?

Diga-me garoto, você realmente acredita que com apenas isso, chegará onde almeja?...” – Abismo.

Le Chang concordava com as palavras do Abismo.

Por muito tempo ele usou a morte de seu pai, a dor que ele sentiu naquele dia, a quase morte de Chi Ziyun e o extermínio do Clã Le, como combustíveis para impulsionar sua força até o ápice.

Por causa desses acontecimentos, ele desejava o poder acima de qualquer outro poder, para ser capaz de viver eternamente com aqueles que amava.

Após um tempo, expandiu seus desejos para todas as outras pessoas, ele as queria oportunizar a capacidade de viverem tranquilamente.

Contudo, o combustível que ele usava era fraco.

“Ódio, medo, tristeza e vingança, são poderosos, mas não são, nem de perto, os mais fortes...” – Abismo.

Le Chang sorriu, seu corpo se curou a um nível cem vezes mais rápido que anteriormente.

“Eu não mereço pelas coisas que fiz ou pela dor que senti. Eu recebi a Energia Dourada pelo que eu serei.

A redenção e a misericórdia se estendem para todos, sendo assim, o passado é passado.

Somos perdoados e agraciados com o poder não pelo que somos, mas pelo que podemos ser.

Eu recebi um poder singular, não por ter sofrido ou por ter conquistado alguma coisa, não, como você disse, eu não passei nada comparado a algumas pessoas.

Porém, a mim foi dada a oportunidade de colocar as mãos em uma força suprema, pois, demonstrei o potencial, para não ontem ou hoje, mas amanhã, superar o maior dos maus, a maior das catástrofes e o pior que o Caos tem a oferecer.

A mim foi entregue a esperança, não apenas da Criadora, mas de todo o Vácuo Eterno, de que eu, Le Chang, vencerei o Fim!” Ele deu um passo à frente e no mesmo instante, a Pressão sumiu, não apenas do primeiro metro, mas dos três primeiros.

Ele não usava Qi, Mana, Energia Dourada ou qualquer outra, mas em seus olhos, uma Fé singular se mostrava inabalável, uma Fé que o deu algo que ele não havia recebido até o momento.

Le Chang foi agraciado com Esperança!




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