Ascensão de um Deus

669 - Ele Foi, É e Será...

No final do dia, Ke Kini apesar de todo o seu poder, parecia exausto.

As crianças o haviam mostrado toda, literalmente toda, a Cordilheira da Ascensão Espiritual.

Os quatro o haviam levado para todo lado, apresentando para todos que passavam, até fizeram Ke Kini ir com eles coletar frutas, seria comum se elas não tivessem o impedido de usar seu poder e o fizeram escalar uma árvore gigante.

Ele foi convencido a andar sem usar seu poder pelas palavras de Le Li, que o surpreenderam de uma maneira assombrosa.

“Que graça tem usar o nosso poder o tempo todo? A magia da vida é a dificuldade, a luta sempre faz a recompensa ser mais doce, tudo que é conquistado de maneira fácil, é sem sentido.

Imagine a água de uma nascente que nasce no topo de uma montanha e então cai no mar, ela sempre será apenas isso, um pequeno córrego, o caminho até seu objetivo é fácil e rápido.

Contudo, pense em uma nascente que nasce em uma planície, a água constantemente sairá e então poderá formar um grande lago, ou talvez ela encontre um declive e torne-se um poderoso rio.

É o mesmo conosco, se não termos obstáculos, sempre seremos os mesmos, não aprenderemos a mudar, a evoluir, seremos como o córrego que aceita descer do topo da montanha e ser apenas absorvido pelo mar...” Estas palavras de Le Li foram impactantes para Ke Kini, porque ele realmente passava por isso.

Por mais que ele fosse uma ótima pessoa e extremamente altruísta, isso se devia ao fato de que ele negligenciava a si mesmo em benefício dos outros, ou seja, ele muitas vezes acabou esquecendo disso.

Para ser quem ele era, devia ser o tempo todo poderoso, mas acabou não percebendo que isto também o tornava fraco, o estagnava em um patamar e o impedia de ser ainda mais forte e poder proteger seu povo ainda mais.

Le Li, uma menina que estava viva a menos de oito anos, lhe ensinou uma grande lição.

E então, por causa disso, Ke Kini, o Deus dos Tigres Divinos, subiu uma árvore imensa atrás de frutas para quatro crianças.

E também, naquele ínfimo instante, quando sua sabedoria recebeu um refrigério, ele sentiu seu poder elevando-se.

Ao subir naquela árvore, ele não se sentiu inferiorizado ou rebaixado pelas crianças, mas, muito pelo contrário, foi ali, que ele mostrou sua grandiosidade.

O grande não demonstra sua glória no topo do pódio, os Deuses não mostram suas divindades nos palcos da Existência, mas sim nas suas ações no meio dos mortais, o grande mostra sua glória quando ele é capaz de despir-se de sua posição para equiparar-se a alguém abaixo dele.

E ali, Ke Kini aprendeu coisas grandiosas, que reforçaram sua presença e a certeza de que seu título de Deus dos Tigres Divinos pertencia, sem dúvida alguma, a ele.

Ele foi capaz de despir-se de toda sua glória para brincar, foi ali, naquele momento, que Ke Kini deixou claro a razão de que ele era a melhor escolha para a posição que ocupava.

Ele era capaz de absorver sabedoria dos grandes, mas também dos pequenos.

Ke Kini sabia, e baseou todo seu reinado nessa simples frase: “A sabedoria se oculta na inocência de uma criança e resplandece no olhar de um idoso em seus últimos suspiros. Ela não faz acepção de pessoas, cor, gênero, divindade ou mortalidade, poderoso ou não...”

Um sorriso dançou nos lábios de Ke Kini quando ele pegou uma grande fruta, de casca amarelada e que tinha uma grande quantidade de água em seu interior, o cheiro adocicado do fruto era realmente estonteante.

E com esse sorriso, ele murmurou: “A sabedoria apenas se revela quando deixamos o que mais nos orgulhamos em nós morrer, afinal, quando o orgulho morre, ele se torna o melhor adubo para que a sabedoria cresça...”

E então, Ke Kini desceu, com várias outras frutas em seus braços e entregou para as crianças que esperavam ansiosamente.

“Nós vamos indo na frente tio!” Gritou Le Liang que saiu correndo disparado em direção a Mansão Central.

Os outros três antes de saírem curvaram-se meio desajeitadamente e também foram correndo atrás de Le Liang.

Ke Kini ficou para rindo.

“Crianças... Certo?...” A voz de Le Chang soou vindo ao longe, o jovem andava em direção a Ke Kini com um sorriso em seu rosto.

“Com certeza, você tem ótimos filhos garoto. Você, sem dúvida alguma, é excepcional, mas seus filhos, eles estão acima disso. Sem serem os Detentores da Energia Dourada eles foram capazes de atingir níveis que nunca foram vistos, nem mesmo os maiores Gênios da Criação, podem se equiparar a eles. Porém, o que eles têm de mais belo em suas vidas é a sabedoria, compaixão, honra e caráter. Você e suas esposas, são excepcionais como cultivadores, mas como pais, eu acredito que vocês merecem meus mais sinceros parabéns...” – Ke Kini.

Le Chang olhava com sua poderosa visão as crianças correndo ao longe, com várias frutas em seus braços e tomando cuidado para não derrubarem nenhuma.

Ele então virou para Ke Kini e sorriu movendo sua cabeça em agradecimento e então começou a falar.

“O poder me foi apresentado pela Energia Dourada, mas foi conquistado pelos ensinamentos que meu pai e mãe me deram. A perseverança que aprendi deles, é meu maior tesouro, e eu quero passar isso adiante, para que futuramente, eles passem para os seus filhos e estes passem para os seus e assim será eternamente...” – Le Chang.

Ke Kini olhou para Le Chang e podia ver que o garoto tinha o mesmo olhar juvenil de sempre, fisicamente Le Chang tinha trinta e um anos, já que a Aceleração Temporal que ele experimentou ao ler os livros e na Sala Temporal de Le Mia, não importavam para seu corpo.

Em seu estado atual, para Le Chang envelhecer um ano fisicamente, seria necessário um milhão de anos e o mesmo era para suas esposas.

Ou seja, os poucos milhares de anos que ele passou, eram insignificantes.

Contudo, Ke Kini também podia ver que detrás daquele olhar, havia um oceano oculto e sereno, como se nem mesmo o cair de uma montanha pudesse produzir ondas em sua superfície.

Ele viu que Le Chang havia finalmente descoberto um real propósito para sua vida, o jovem havia visto além dele, além de seus sonhos, ele havia presenciado o todo.

“Eu te entendo, é o mesmo que eu quero para minha filha. Eu a tive quando já era o Deus da minha raça e ela teve dificuldades por causa disso, pois ela nasceu com um fardo que ela não pediu...” – Ke Kini.

“Nossos filhos jamais pediram para nascer, nem nós pedimos para nascer, mas nascemos. Focar na possibilidade de não existirmos é irrelevante, pois tais pensamentos podem acarretar apenas uma conclusão: “Eu não pedi para nascer e não quero viver, então tirarei minha própria vida...”.

Porém, o suicídio, é uma afronta a vida, é como recusar o tesouro mais precioso que existe, o dom da vida.

Um diamante é um mineral simplório, mas uma vida, é a obra-prima de uma mente tão grandiosa, que foi capaz de nos tornar capazes de pensarmos, sonharmos, sentirmos.

Eu não culpo o suicida, ele muitas vezes atingiu um estado tão profundo de tristeza, depressão e sua autoestima está tão deteriorada que ele não vê mais sentido em continuar aqui.

No entanto, o sentido sempre está lá.

A tristeza é terra seca, onde nada prospera e a depressão é o sol escaldante, que não deixa nada irrigar a terra.

A autoestima é como a água, com ela nós somos capazes de trazer novamente a terra a capacidade de ser fértil. Porém, água demais não é bom, pois, acabamos nos afogando em nós mesmos, no entanto, com a dosagem certa, podemos permitir que as flores do amor floresçam, as árvores da amizade cresçam e o cheiro adocicado da alegria se espalhe em nossos corações...” Ke Kini via que Le Chang falava com seus olhos marejados, e ele sabia a razão disso, ele ficou sabendo que Le Chang pode ouvir por um instante todas os seres vivos da Criação, então, ele deixou o jovem continuar.

“A vida é um presente dos céus. Pense quão lindo é estar vivo, poder sentir o carinho de sua mãe, o abraço da pessoa amada, o sorriso de nossos filhos, o calor humano de nossos amigos, a beleza do companheirismo, da união.

Eu entendo, muitas pessoas perderam tudo isso, eles não têm seus pais, não tem ninguém para amar, perderam seus filhos, e aqueles que se diziam amigos sumiram.

No entanto, há uma força que não se cala, não importa quão seca seja a terra, não importa quanto escaldante esteja o sol, não importa quanto desespero você passe, não importa o quão grande foi seu trauma, não importa quão grande foi seu medo, essa voz, por mais inaudível que seja, sempre diz: “Viva! Pois grandes coisas eu tenho para você, basta viver!”

Essa voz é a própria vida dentro de nós, dizendo: “Me mantenha com você e comigo, você poderá viver coisas que jamais sonhou, poderá conquistar coisas que jamais outra pessoa conquistou, comigo você pode conquistar não o mundo, mas a si mesmo, e quando você conquistar sua mente, seu corpo e seu espírito, nesse dia, seu propósito será tão claro como o meio dia de um dia de verão, o sol que iluminará seu coração não será símbolo de depressão, mas de luz que torna a vida possível.”

E eu, Le Chang, não quero me contentar com um mero sussurro, eu quero gritar nos ouvidos daqueles que perderam a vontade de viver, eu não quero ser o eco da vida que luta para continuar viva, não, eu quero ser tão alto como o cantar da cigarra na primavera, tão alto como o som de um violino em seu solo...” – Le Chang.

Ke Kini podia ver que lágrimas escorriam dos olhos de Le Chang e quando caiam no chão, a terra parecia tremer levemente e a grama ficava mais verde e poderosa.

Ele havia percebido com facilidade, Le Chang não tinha medo de criar seus filhos e nem de ser filho, pois, ele tinha a certeza de seu propósito.

Le Chang não temia que seus filhos não fossem boas pessoas no futuro, ele sabia que eles seriam, não porque ele era o melhor pai que existia, mas porque ele foi pai.

Um filho não precisa do melhor pai ou mãe do mundo, mas sim de um pai e de uma mãe.

E ele foi, é e será um pai.




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